Eras ainda botão para seres molestada.
Perdida entre a noite e o dia. E olhos no chão.
Sofrida. Menina desbotada. E pela vida estropiada, não percebias Que nem todos os gestos seriam despudor.
Não chegaste a ser flor que ao orvalho abrisse
E a alvorada não te acordou mulher
Nem o amor te desabrochou as pétalas
Nem te aflorou a seda nem a formusura.
Olhos no chão. Dura sina. Enxutas lágrimas.
Quase a sucumbir, quase fora da estrada,
Surgiu a mão,
O aconchego e o estímulo.
E um mundo maior. E um poema que começaste a ler.
Abandonaste uma história escura,
De vão de escada.
Levantaste o olhar e nas estrelas escreveste.
Amanheces viva, agora. Passo seguro.
De mão dada. E a rua é tua amiga.
És gota que o sol beijou. Pássaro que voou.
Natureza. Mulher. Mãe – ternura.
Teresa Almeida Subtil
25-11-2017
(Desafio poético: um olhar sobre o assédio.)
(imagem retirada da internet)
terça-feira, 21 de novembro de 2017
"...Há um rio que nos une. E um mar que nos recolhe. Há uma alvorada e um ocaso que nos define e aproxima.
E a inspiração, esse voo de águia sobre os penhascos que miram as águas puras do nosso rio, nasce em cada recanto, em cada meandro que o Douro desenha, como se dum fulgurante nascer do sol se tratasse.
Cito Alexandre O’Neil quando disse que;
“Há palavras que nos beijam/Como se tivessem boca”
E eu afirmo: como é bom sentir o afago desta boca!
Há quem junte palavras e há quem se faça juntar através das palavras. Na Teresa as palavras ganham vida própria em cada verso. Mexem dentro do peito de quem as lê e, surpreendentemente, permanecem lá bem junto ao lugar onde comummente existe a alma em forma de coração.
A Teresa parece que flutua sobre as nuvens tal é a intensidade do seu talento. E a magia que coloca em cada verso rouba brilho ao sol e constrói um novo céu.
"…de repente
O olhar fica cativo
Da liberdade do sol a romper o ventre dos dias
E da ternura a florir nas tuas mãos”
Há livros que tem o condão de nos fazer querer ler sem parar e, ao mesmo tempo, nos obrigam a voltar ao princípio para os voltar a ler.
Há livros que nos dominam, que se entranham nos nossos olhos, que abrem janelas para parapeitos desconhecidos, que descobrem horizontes para além do mais bonito dos ocasos. Este Rio de Infinitos tem tudo isto. Tem uma espécie de magia que nos prende em cada folha, uma vontade de liberdade traduzida na corrida louca do Douro até à Foz.
Este Rio de Infinitos não se lê. Vai-se lendo, calma e serenamente, saltando páginas, avançando e recuando para que nada falte, e tudo fique, com imenso prazer, a fazer parte do pouquinho que éramos e do tão grande que nos tornamos após o lermos.
É nesta imensidão de afectos que vale a pena experimentar a intensidade das palavras e guarda-las nos olhos que também existem no coração. " Ricardo Silva Reis
Guardarei "nos olhos que existem no coração" esta viagem pelas páginas do meu "Rio de Infinitos / Riu d' Anfenitos", no Orfeão de Matosinhos. Uma viagem íntima, fluída e - gostosamente - partilhada.
“Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar Do rio de palavras selvagens preso em ti Das melodias vadias que escreves ao luar,
Diz ao desassossego que ateias em mim O poema que quero entender
E quando a minha pele começar a enrubescer Diz-me tudo. Não deixes nada por dizer”
E Teresa Almeida Subtil não vai deixar nada por dizer. Na próxima sexta-feira, dia 17, pelas 21 horas, no Salão Nobre do Orfeão de Matosinhos vai acontecer magia transformada em palavras. Terei o enorme prazer e a grande responsabilidade de apresentar o mais recente livro desta Escritora Mirandesa, Rio de Infinitos (Riu D’Anfenitos). Não faltem. Vamos deixar que este rio inunde os nossos sentidos.
Nota de redação: A Seara Nova publica, nesta edição, um poema escrito em língua mirandesa, traduzido para português pela autora. Num contexto de cada vez mais intensa massificação cultural, pretende-se assinalar o mérito do estudo e da prática da língua e cultura mirandesas, como instrumento de resistência a esteriótipos culturais e factor de emancipação e desenvolvimento do interior do país.
L sonido de la senara
De l berano la selombra, la boubice, la seduçon.
Tiempo moço i manos paridas de palabras ambergonhadas.
Manos q'ampálpan las cinzas i l bentre de la casa.
I la binha zértica a reclamar ls mostos i l rebolhiço.
Bazies, las tulhas son arcas de decoraçon.
L carino geme ne l sobrado i mius passos
Son campanas que dróban ne ls abraços sien tornar.
Perros i ls gatos (i las abes de la nuite) son bistas
I l´airico, ambencible, cubre la soudade que bózia.
De l rescaldo guardo l'oulor, l carino
I la colheita. L sonido de la senara. I la rebuolta.
I ne l'afago de la poesie partelhada cumo sustento
çcubro agora l carreiron de caminos outros.
Las eiras seran siempre adonde (i cumo) quejires.
Melodia da seara
Do estio a sombra, o desvario, a sedução.
Tempo moço e mãos paridas de palavras a recato.
Mãos que apalpam as cinzas e o ventre da casa.
E a vinha desértica a reclamar os mostos e o reboliço.
Vazias, as tulhas são arcas de decoração.
O carinho geme no sobrado e meus passos
São sinos que dobram nos abraços sem regresso.
Cães e os gatos (e as aves noturnas) são paisagem.
E a brisa, indomável, fecunda a saudade que grita.