O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

domingo, 30 de outubro de 2011

Amigos de Lagoaça


                       
É a saudade que aperta

e levou o amigo Ramalho

a abrir um portal sem medidas
e os amigos de Lagoaça
pardais destes e de outros tempos
andam agora num rodopio
e voam de galho em galho
em oliveiras de arribas
como nos lembra o Abílio


Uns escrevem pela noite dentro
outros ao romper da aurora
e os que comentam e apoiam
e como o Antunes contam

de Lagoaça a história
para matar a louca saudade
fazem aqui um grande encontro
uma página de amizade

É a saudade que aperta
quando o Sobral abre com graça
 memórias da fonte da praça
e dos passeios à estação
É a saudade que aperta
dos tempos que já lá vão
quando o nosso amigo Miro
recorda o encanto que tinha
um passeio à cruzinha

É a saudade que aperta
e bate forte nos Açores
Em tão exuberante natureza
até Deus se perdeu de amores
e quase todos os dias
recebemos do Manuel Pires
um especial  ramalhete de flores

quinta-feira, 27 de outubro de 2011



Levantei-me hoje cedo
E no leito do rio havia
Um tecido de cambraia
que a luz refletia
Cortei o melhor bocado
E vesti-me de poesia


Teresa Almeida 02-03-2011

domingo, 23 de outubro de 2011

L corneteiro de D. Fonso Anriqueç


Diç que antigamiente, ne l tiempo de ls reis i de las rainhas, an que las pitas tenien dientes, diç que, anton - l storiadores que me perdónen se bou a dezir algun çparate - quando se cunquistaba ua cidade, era questume todo mundo de l eizército ambasor tener parte ne l "saque". Mas nun era assi de qualquiera maneira: solo se podie ampeçar a arrebanhar l que se ancuntraba quando l quemandante d el eizército, l rei, disse l'orde para ampeçar i acababa quando l rei mandasse parar. Ora, essas ordes éran dadas pul corneteiro de l rei: un toque para ampeçar i outro, çfrente, para parar.
Muito bien. Diç que, anton, quando l eizército de D. Fonso cunquistou Lisboua, aquilho staba todo mundo culs pios ne l "arrebanhadeiro" que se iba a seguir, que Lisboua yá naquel tiempo tenie fama de haber muito adonde botar la mano.
Pus si senhor, arrumbadas las puortas i alhebantada la bandeira Pertuesa, D. Fonso chamou anton l corneteiro i dixo-le que a tal hora dira l toque para ampeçar i que al streponer l sol dira l toque para parar. Ora, l nuosso heirói, l lhafrau de l corneteiro, a la hora treminada si dou l toque para ampeçar, mas apuis, mius homes, bós manginai-bos, un pouca-roupa "de l norte", la purmeira beç an Lisboua i cun licença para botar la mano al que se le antolhasse, aquilho l home passou-le cumo al de Ruolos, cegou-se culas riquezas i culs ancantos de la "moirama" i, bardinote, amborrachou-se, anrodelhou-se ne ls béus de ua filha de Maomé, perdiu-le l tino a la corneta i squeciu-se-le de tocar para parar.
De maneira que, i cumo manda la lei de D. Fonso que naide dá fé de haber sido "rebogada", zde aquel tiempo, aquilho an Lisboua ye un ber quien arrebanha más i quien ye capaç de ajuntar l "saque" más taludo.
Anté hoije!
 
Alfredo Cameirão

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Voo livre


Entrelaçam-se  heras nos meus sonhos
que tardam na despedida de Verão
Tento forçar o ferrolho de ferro
que minhas venturas aprisionou
Olho agora a porta viva
de paixões agrestes rachada
que  antiga e nobre arte guardou
Cá fora o Outono. Em voo livre
 folhas ardem em poesia
e em  pintura se tornou
o meu mundo sem estação

Teresa Almeida 17-10-2011

sábado, 15 de outubro de 2011

Lagoaça cheira a flor de laranjeira

                                                                     É da assomada que o precipício se desenha
e a beleza arrepia

Profundo, largo e imponente
é o Douro lagoaceiro

Entre íngremes montanhas
espraia-se sorridente

É uma força que a luz acende
e pinta de um verde sedutor
a folha da oliveira

Há uma fragância que sobe as arribas
é de flor de laranjeira

Teresa Almeida 15-10-2011

domingo, 9 de outubro de 2011

L miu riu

                                                   
  
Abaixaran-te las augas, l bigor
ua cuorda triste i sbranquenhada
apérta-te  agora ls cunhos
i tu scuorres debagarico
nun Outonho que nun çcola de l berano


 Anda triste l riu


Yá nun oubo l tou sereno cantar
que  m´arrolha la lhembráncia
Mesmo al loinge
ne l assomadeiro de la cruç
beio un abismo de belheza que ye nuosso
que mos assigura an faias de sprança


 Inda onte a la nuite, mesmo de lhoinge
te fui a bejitar
i nun siléncio que m’sdmirou
reparei qu'an remansos te deitabas
i, cula lhuna abraçada a ti,
relhuzies


Anda triste l riu


Lhágrimas arramadas an rumiacos de tristeza
muolen-mos la suidade
dun riu datrás altaneiro i atrebido
que cantaba i galgaba peinhas
nun sabido cantar d'amigo


 Falta-te l'abundáncia que mana de l cielo
tarda l’auga que te lhieba l'amargura
i las cuordas de la tortura


 Para adonde lhebórun la tua fuorça i alegrie
Qu'an abraços se fazie?


Anda triste l riu


Nunca scabaran l tou suolo
porque an Lhagonaça i an Miranda
sós tu que scabas fondo
 i ancho te fazes  baliente


 Por mais que de tristeza quergas screbir
hás-d' ir al renhon de l Ambierno
a saber de la fuorça i la zamboltura
i  un cheiro  de flor de laranjeira
chubirá las arribas
an Lhagonaça,  miu bentre materno


 I ls uolhos miraran
l berde azeituna de las oulibeiras
i la suabidade relhamposa de las  lharanjeiras 


De l fondo de tue cama cuntinará a rumper
 la fuorça i l'oudácia dun riu D´ouro
para siempre an ti
lhuç i seiba de bida poder nacer


Teresa Almeida, 05-10-2011

O MEU RIO

Deslizas agora fundo, angustiado
entre  penhascos de rebordos esbranquiçados
marcas de ausência de chuvas
que te trazem esganado
num Outono que não descola do estio

Anda triste o rio

Já não ouço o teu meigo cantar
que me embala a lembrança
Mesmo à distância
no miradouro da cruz
vejo um abismo de beleza que é nosso
e nos segura em penhascos de esperança

Lágrimas vertidas em limos de tristeza
moem-nos a saudade
de um rio outrora altaneiro e atrevido
que cantava e galgava escarpas
num sábio cantar de amigo
Para onde levaram a tua força e alegria
que em abraços se fazia?

Anda triste o rio

Jamais cavarão o teu chão
porque em Lagoaça e em Miranda
és tu que cavas fundo, amigo
e largo te fazes imponente
Por mais que de tristeza queiras escrever
ainda te sonho valente

Irás ao rigor do Inverno
buscar  força e  subtileza
e a tua fragância de flor de laranjeira
subirá as arribas
em Lagoaça,  meu ventre materno

E os olhos se espraiarão
entre o verde azeitona das oliveiras
e a suavidade luminosa das  laranjeiras
Tenho vontade de correr à assomada
quando em maroma te fizeres

 Do fundo do teu leito
 continuará a romper
 a força e a audácia de um rio D´ouro
e, para sempre em ti
luz e seiva de vida irá nascer
                                                    

Mãos

Obra editada "EM SUSPENSO"
as minhas mãos.
Reparo nelas…
Pouso-as
separando, delicadamente,
cada um dos dedos…
Como se escancarasse
a porta da rua
ao amigo.


Observo-as…
Acaricio cada dedo.
Não pela pela sua beleza
antes pela sua dureza.
Acompanham-me…
Como são imprescindíveis!
Mas não dei valor…
Acordo de um torpor,
perfeitamente inadmissível.


Via nelas a imperfeição…
A pele irregular,
que oleosos cremes
não podem disfarçar.


Hoje, deslumbro-me
E só vejo perfeição.
Executam os gestos,
que dita o coração.


Com as mãos acaricio
os rostos e as coisas.
Com as mãos partilho,
todo o meu mundo.
São esperança…
São herança
que deixo ao filho.


OF 21-03-201

Morar no teu sorriso


O meu Livro


Abri o peito, soltaram-se luas,
Mordi os lábios e beijei a dor.
Toquei as mãos de dedos nuas
Bebi em ondas o meu suor.

Arranhei a alma, escrevi na pele,
Parti os olhos para não ver.
Comi despojos a saber a fel,
Morri assim por não te ter.

Acordei do sonho, nasceu o sol
Encurtei distâncias, fiz-me mar.
Eu fui veleiro, tu o farol,
No teu sorriso quero morar.
Acubri-te an tierra
Para an tierra medrares
Reguei-te de la fuonte
Para nun te secares
Medreste debrebe
Debrebe floriste
Fuste-te debrebe
Mas siempre beniste

Acubri-te na tierra
Fuorte te faziste

Arranquei-te las yerbas:
Cherinchos, yerbas mouras
Berdulagas, grama
Paridas pula tierra
Tan bien amanhada
Puis nun fáltan yerbas
Na tierra strecada                                        

Arranquei-te las yerbas
Sien te doler nada

Acubri-te an carino
Para te tirar l miedo
An beisos i abraços
Para que nun tritasses
Aperteste ls lhaços
Agarrando la cemba
Puis que naide dará
L que ne l peito nun tenga

Acubri-te an carino
Para que de drento te benga!


Screbido die 26, die de ls anhos de l miu filho mais nuobo, Rui.

sábado, 1 de outubro de 2011

EU SONHO

E eu sonho
nesta noite em que na terra
chispam estrelas
que uma pedra redonda feita planeta
acordou, de repente, da letargia
em que anoitecia

E eu sonho
que os montes ganharam bicos
como gritos estridentes
que picaram os céus
e acordaram os deuses
que loucos ficaram
com a loucura que  viram à solta

E as palavras  poéticas que deixaram
deslizavam em mares de revolta
e o planeta azul deixou de ser
o fogo do amor perdeu a chama
para em pedra se converter

E eu sonho
Que chisparão palavras feitas estrelas
de ternura,  beleza e clarividência
e com o brilho e a força delas
a pedra ganhará perfeita  rotação
e sempre seguirá
presa ao chão

E eu sonho…

Teresa Almeida 30-09-2011