sábado, 21 de setembro de 2019

Centelha Concupiscente


Na pele dos dias intromete-se a palavra
E a melodia que a embriaga.
Emerge pura na orvalheira
Como se feiticeira fora.
É terra, é povo, é dor e fantasia
Guelra efervescente.
E ao primeiro golpe de sol
Contorce-se, esgueira-se pela escarpa
E resvala em murmúrio de nascente.  
É centelha que ao poema se entrega
Concupiscente.

Teresa Almeida Subtil






domingo, 15 de setembro de 2019

Dialética / Caminhos de liberdade



Não é muito habitual no Porto um clima tórrido como o de 14 de setembro último. Atravessar a Avenida dos Aliados fez-me lembrar o deserto lá para os lados de Abu Symbel, onde só experimentei o calor às 8 da manhã porque, a partir daí, já era impossível e o meu chapéu até era bem abonado. Subi lá para os lados da Sé e contornei pela esquerda até aos portões da Casa Museu Guerra Junqueiro, poeta, prosador, jornalista e político português (1850-1923),  “destacado escritor do Realismo, movimento literário que reproduz a ação social e política da segunda metade do século XIX”.
Por vezes sinto-me em casa, e este foi um desses gratificantes momentos, não fosse eu de terras de Freixo de Espada à cinta.
Rui Fonseca e Ana Homem Albergaria apresentavam, então, o seu livro de poesia, na simpática cafeteria, logo à entrada, do lado esquerdo. Fiquei atenta e motivada pela temática. Adentrar esta poética é um caminho aliciante. Criação que tem a sua origem na energia que Ana Albergaria imprimiu à sua exposição de pintura, por onde perpassam preocupações existenciais. O cruzamento da filosofia com a arte abriu, assim, portas à dialética da vida.
 Folheio o livro e, em olhar cruzado, surge a profundidade do tema que toca a criação, a interrogação, a busca da felicidade, a ética, a liberdade … surge a poesia como arte maior em que o ser humano se emociona, “se ergue e se constrói”.

Depois de desfrutarmos de um deslumbrante pôr – do- sol no Passeio das Virtudes e de experimentarmos os sabores moçambicanos da casa da tia Orlanda, encaminhámo-nos para a Feira do Livro onde nos aguardava o mundo das descobertas.
Enfim…” o Porto é lindo de morrer!”

Teresa Almeida Subtil

Corpo de mulher

“Que olhas tu mulher
Por entre roupagens de esperança
Onde o verde clareia a mudança?
Ainda que visivelmente semicoberta
Em teu olhar arguto,
És suficientemente capaz de veres além
Muito além deste parco aquém
Por onde a dialética do caminho se move.
Que olhas tu?
O futuro em teus braços
 A humanidade em teu seio?
E o mundo inteiro no teu colo?
Ou será algo mais
Para além deste teu inusitado e advertido olhar
Com o qual me encontro todos os dias
E me acena com sorriso
Num apelo longe de ir mais longe?...”

Rui Fonseca pg 50
…
Cumplicidade Poética

Saberei sempre como te tornar cúmplice,
Nesta busca, quase insana,
Pelo que me transcende.
E quando não souber mais
Como te fazer refém dos meus sentimentos,
Então deixarei que afogues
Todas as palavras frias e sem sentido,
No mar das minhas lágrimas.
 As outras,
As que se derretem em doçura
Como um beijo em lábios quentes;
As que se expandem em urgência de amor,
Transformando os padrões da nossa consciência;
As que gritam justiça, as que abraçam;
As que cantam a paz; as que dançam:
As que nos elevam a uma renovada existência;
Essas permanecerão dignas do teu nome: Poesia.
E tu e eu seremos nós, a coexistir na minha voz!”

Ana Homem Albergaria pg28


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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Rente à telha


             
Abre-se a comoção da tarde
A navegar em vela branca e nua
E a ponte é suave abraço de mulher

A lua é beijo a brilhar na amurada
Por onde se espreguiça teu olhar
E o par que tropeça na calçada
Arrebata o rubor da flor

Rente à telha sucumbe o dia
Em arroubos de prazer.


Teresa Almeida Subtil


Museu romântico - Porto





domingo, 25 de agosto de 2019

Seiva de afetos / sangre d'afetos

Seiva de afetos


 Trinados soltos no picão e litanias

Sufragadas às raízes.

Rio, seiva de afetos

Que na alma correm e na folha exultam.

Oliveira a reclamar identidade.



Rebeldia esgalhada a pique.

História lavrada. Estrela da manhã.



Poesia aguçada no paladar

A florir em cada galho. Árvore de vida.

Renovo. Luz acesa.

Grito e liberdade.

E um aroma a flor de laranjeira

Que no verso arde.



Cada passo é asa aprumada ao infinito,

Suspiro que atravessa a casa.

E cada olhar que a patine do tempo enobrece

É folha de um livro

Que à humanidade pertence.





---Sangre d'afetos  (lhéngua mirandesa)



Trinados suoltos an la peinha

I ouraçones arrincadas a las raízes.

Riu, sangre d'afetos

Que n’alma cuorren i na fuolha sáltan.

Oulibeira a eisegir eidentidade.



Atremetimiento.

Stória lhabrada. Streilha de la manhana.



Poesie aguçada ne l gusto

A florir an cada galho. Arble de bida.

Renuobo. Lhuç acesa.

Bózio i lhiberdade.

I un aroma a flor de laranjeira

Que ne l bércio arde.



Cada passo ye ala a dreitos al anfenito,

Suspiro q'atrabessa la casa.

I cada mirar que la prata de l tiempo einobrece

Ye fuolha dun lhibro

Que a l'houmanidade pertence.



Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 13 de agosto de 2019

Meu navio


Teu corpo é meu navio
Transparência do instante
Em que o leme enxerguei
E todo o génio caldeado além
Num mar que não recordo e sei

Passei a ler-te sem tocar certezas
Luz que para lá do véu se proclama
Sem seres céu serias chama
Sem seres meu passaste a pertencer-me

Quase te toquei e tanto queria
Aquela aurora em fim de dia
Clarão e bruma quente
Ilha que ao longe se faz presente
Navio tatuado em minha mente.


Teresa Almeida Subtil


Ilha de S. Jorge - Açores

domingo, 4 de agosto de 2019

Poesia na cozinha


À volta da mesa as expressões dizem da qualidade da comida.
E entre os convivas perpassam sentimentos de união.
Afinidades de paladar atraem grandes amizades.
Somos soltos e dizemo-nos verdadeiramente.
Conquistamo-nos, é verdade.

À volta do tacho fervilham versos de arrepiar.
E é de cumplicidade que os ingredientes se envolvem
E os temperos acrescentam singular paladar.
Cruza-se a fantasia nas mãos de quem compõe

Um prato de indescritível prazer.

Cozinhar é um dom de quem o sente e partilha.
Até o poeta se ajoelha e declama, o músico dedilha a melhor melodia.
E o pintor acende tons impressionistas.

A mesa é um lugar sagrado. É um lugar de afetos.
E é tão natural a gargalhada
Como a guitarra bem afinada a contorcer-nos o corpo e o espírito.
E a satisfação e o rubor sobem ao rosto 
De quem da cozinha faz poesia.



Teresa Almeida Subtil













Abertura do 20º Festival Intercéltico 

em Miranda do Douro 

com o grupo MELKISEDEK (Argentina).



terça-feira, 30 de julho de 2019

O riso da minha mãe


Os livros nascem e crescem connosco e, assim, somos o próprio livro. Acredito que têm inscrito o nosso ADN.  
A propósito de um texto meu sobre a apetitosa bola doce mirandesa, um poeta brasileiro, que muito aprecio, Pedro Luso, desafiou-me a escrever sobre meus livros. É curioso que a minha primeira publicação acontece, precisamente, numa antologia luso-brasileira, através da Editora Sapere, no Rio de Janeiro. A seguir participei em várias. Entendo ser a poesia uma forma privilegiada de comunicar e só cumprirá esse desiderato se for lida, dita ou cantada. Algo que cativa e provoca. Nada acontece por acaso e senti o desafio como possibilidade de autoanálise. Agrada-me esta ideia de diálogo comigo mesma. Bem sei que Pedro Luso queria saber das experiências que vivi ou dos sentimentos que experimentei ao publicar livros – apenas dois atá à data. Mas agarrei a ideia como caminho mais alargado.
De cariz autobiográfico é o meu primeiro livro. Nascido, à beira-rio, cresceu em regaços de arribas e em cordões umbilicais que se materializaram pela vida fora. Lembro-me de voar enquanto dormia. É a ideia mais clara e mais antiga que tenho, acrescida das primeiras brincadeiras de rua, das descobertas no quintal da avó, dos primeiros questionamentos, das primeiras afeições...
 Há dias encontrei uma amiga com a qual cresci no colégio da Imaculada Conceição, em Lamego. Estávamos num funeral e não conseguíamos parar de partilhar abraços. Nasciam na espontaneidade e na alegria do reencontro. Não há amizades comparáveis àquelas que construímos enquanto crescíamos.
Só escrevemos pela necessidade de guardarmos as memórias que nos cresceram e outras que dizem da busca e da perplexidade, do desassossego… Escrever é, realmente, um ato de amor e de libertação. Como se as palavras saíssem das pedras rasteiras, acariciadas por águas ribeirinhas e outras rasgassem os céus, como agulhas de catedrais.
Chamei OUSADIA ao meu primeiro livro, por corresponder a um rasgo de alma e por ter tido a coragem de submeter a concurso meus íntimos escritos.
É certo que as palavras se intrometem, se baralham e digladiam. São, naturalmente, inquietas, parecem querer dar testemunho da vida que as faz ferver. Têm urgência de entrar em cena e saem de todos os lugares para construírem um corpo único, versátil e universal. Hesitantes, bailarinas, sofridas ou estrelas da manhã expandem-se de modo a imprimirem uma dinâmica sem sinais conclusivos. Logo outras se insinuam, borbulham e se fazem ao largo …E eu tremo, mas não vacilo. Escrevo com a força do olhar e do sorriso que herdei. Força que pressinto como se as palavras se beijassem nos bicos das aves do meu vale, rebentassem da pele dos frutos maduros ou escorressem de lábios sedentos, no pino do verão. Nelas verto perfume, paladar e emoção. Apraz-me citar aqui Conceição Lima: Juntemos fragas, giestas, torgas, rosmaninho, cardos e alecrim. Com isso, Teresa Almeida Subtil constrói o seu ninho. Depois, aconchegada, olha as arribas, o Douro e o Alto. Ensaia o voo. Sobe. Atinge as alturas das águias. Do alto, olha, perscruta, escuta, ouve a terra, o chão, o SEU CHÃO, eterno apelo. Faz do voo, planado ou a pique o seu constante desafio! Em mirandês, explica a cartografia dos seus refúgios – TERRA E CÉU.

Sou raiana, de janelas escancaradas, sem fronteiras, sem preconceitos e, ainda que os olhos piquem afetados pelo cansaço, as palavras não ousam adormecer. E acrescentam vida à própria vida, melodia que recolhi nos passos que dei, nos livros que li e nas pessoas com estrelas no olhar. Poderão ser ribeiros que não nadei, águas que não bebi, mas amei… Elas navegam em desejo e ganham vida própria. E eu quero-as soltas … por aí …

Teresa Almeida Subtil

(continua)