O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

domingo, 10 de dezembro de 2017

Natal 2017


Arde o madeiro perto da igreja
Sinos repicam e rasgam os céus
E em toda a bondade que em nós se almeja
Há um verdadeiro encontro com Deus

Sem roupa, sem abrigo e sem comida
Falham desígnios do criador
É por isso que se espera outra vida
Nosso mundo reclama o salvador

E com as cantigas de antigamente
Fica mais forte esta dor, mais pungente
Mais distante e amargo o bem-querer

E por cada sofrimento inocente
A humanidade chora descrente
O deus menino está AINDA por nascer

Teresa Almeida Subtil






sábado, 2 de dezembro de 2017





E o perfume?

Hei-de levar as palavras desajustadas, duras e toscas
e delas farei rústicos peitoris onde se espelhará a alvorada.
Hei de atirar a raiva pelas janelas, e elas só poderão ser azuis
com caixilhos de luar. As rendas e as cortinas serão esburacadas,
marcadas e furadas pelos beijos de sol e até de vento.
O meu poema terá que ter ritmo, calor, movimento.
Nascerá pela tarde à hora do sol-pôr e lutará contra
a torrente que força o rio a escurecer. Serei verde, sempre verde,
e viverei na alegria da oliveira e no romantismo da laranjeira.
Será na árvore milenar, na pele duramente enrugada,
nos nós gretados de ausências, de precariedade, 
que os ninhos de esperança terão lugar. Dela penderá o cântaro,
abraçado pela cintura da tarde, só para ver a sede acontecer.
Quero ser o sumo das palavras espalhadas pelo pomar,
morto de saudades. Meus cabelos serão líquenes
 em cinzento prateado, plenos de liberdade. Do azedume
farei vigílias. As portas irão abrir-se aos pardais
desamparados. Presente estará sempre o amor. E o perfume?
Virá do jasmim, entrançado na parede, alicerce do poema,
e percorrerá a varanda voltada a nascente.


I l prefume?

Hei-de lhebar las palabras zajustadas, duras i mal andonadas
i deilhas fazerei rústicos peitoriles adonde se spelhará l'ourora.
Hei d'atirar la rábia pulas jinelas, i eilhas só poderan ser azules
cun queixilhos de lhuna. Las rendas i las cortinas seran sburacadas,
marcadas i furadas puls beisos de sol i até de biento.
L miu poema deberá tener cumpasso, calor, córrio.
Nacerá pula tarde a l'hora de l çponer l sol i lhuitará acontra
la torriente que lheba l riu a scurecer. Serei berde, siempre berde,
i bibirei na alegrie de l'oulibeira i ne l remantismo de la laranjeira.
Será na arble milenar, na piel duramente angurriada,
ne ls nuolos sgretados d'ouséncias, sien speques,
que ls nials de sperança teneran lhugar. Deilha se colgará l cántaro,
abraçado pula cintura de la tarde, solo para ber la sede acuntecer.
Quiero ser l çumo de las palabras spargidas pul pomar,
muorto de soudades. Mius pelos seran patrielhas
 an cinza pratiado, chenos de lhiberdade.De l azedume
fazerei begílias. Las puortas eiran abrir-se als páixaros
zamparados. Persente stará siempre l amor. I l prefume?
Benerá de l jasmin, antalisgado na parede, pie-de-amigo
de l poema, i zinará pula baranda birada a naciente.


Teresa Almeida Subtil 

(in Rio de Infinitos/ Riu d'Anfenitos)

domingo, 26 de novembro de 2017

De mão dada

Resultado de imagem para de mão dada pinturas
Eras ainda botão para seres molestada.
Perdida entre a noite e o dia. E olhos no chão.
Sofrida. Menina desbotada.
E pela vida estropiada, não percebias
Que nem todos os gestos seriam despudor.
Não chegaste a ser flor que ao orvalho abrisse
E a alvorada não te acordou mulher
Nem o amor te desabrochou as pétalas
Nem te aflorou a seda nem a formusura.
Olhos no chão. Dura sina. Enxutas lágrimas.
Quase a sucumbir, quase fora da estrada,
Surgiu a mão,
O aconchego e o estímulo.
E um mundo maior. E um poema que começaste a ler.
Abandonaste uma história escura,
De vão de escada.
Levantaste o olhar e nas estrelas escreveste.
Amanheces viva, agora. Passo seguro.
De mão dada. E a rua é tua amiga.
És gota que o sol beijou. Pássaro que voou.
Natureza. Mulher. Mãe – ternura.

Teresa Almeida Subtil
25-11-2017

(Desafio poético: um olhar sobre o assédio.)

(imagem retirada da internet)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

"...Há um rio que nos une. E um mar que nos recolhe. Há uma alvorada e um ocaso que nos define e aproxima.
E a inspiração, esse voo de águia sobre os penhascos que miram as águas puras do nosso rio, nasce em cada recanto, em cada meandro que o Douro desenha, como se dum fulgurante nascer do sol se tratasse.
Cito Alexandre O’Neil quando disse que;
“Há palavras que nos beijam/Como se tivessem boca”
E eu afirmo: como é bom sentir o afago desta boca!
Há quem junte palavras e há quem se faça juntar através das palavras. Na Teresa as palavras ganham vida própria em cada verso. Mexem dentro do peito de quem as lê e, surpreendentemente, permanecem lá bem junto ao lugar onde comummente existe a alma em forma de coração.
A Teresa parece que flutua sobre as nuvens tal é a intensidade do seu talento. E a magia que coloca em cada verso rouba brilho ao sol e constrói um novo céu.
"…de repente
O olhar fica cativo
Da liberdade do sol a romper o ventre dos dias
E da ternura a florir nas tuas mãos”
Há livros que tem o condão de nos fazer querer ler sem parar e, ao mesmo tempo, nos obrigam a voltar ao princípio para os voltar a ler.
Há livros que nos dominam, que se entranham nos nossos olhos, que abrem janelas para parapeitos desconhecidos, que descobrem horizontes para além do mais bonito dos ocasos. Este Rio de Infinitos tem tudo isto. Tem uma espécie de magia que nos prende em cada folha, uma vontade de liberdade traduzida na corrida louca do Douro até à Foz.
Este Rio de Infinitos não se lê. Vai-se lendo, calma e serenamente, saltando páginas, avançando e recuando para que nada falte, e tudo fique, com imenso prazer, a fazer parte do pouquinho que éramos e do tão grande que nos tornamos após o lermos.
É nesta imensidão de afectos que vale a pena experimentar a intensidade das palavras e guarda-las nos olhos que também existem no coração. "
Ricardo Silva Reis



Guardarei "nos olhos que existem no coração" esta viagem pelas páginas do meu "Rio de Infinitos / Riu d' Anfenitos", no Orfeão de Matosinhos. Uma viagem íntima, fluída e - gostosamente - partilhada.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Rio de Infinitos/ Riu d'anfenitos em Matosinhos

“Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
Do rio de palavras selvagens preso em ti
Das melodias vadias que escreves ao luar,
Diz ao desassossego que ateias em mim
O poema que quero entender
E quando a minha pele começar a enrubescer
Diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer”
E Teresa Almeida Subtil não vai deixar nada por dizer. Na próxima sexta-feira, dia 17, pelas 21 horas, no Salão Nobre do Orfeão de Matosinhos vai acontecer magia transformada em palavras. Terei o enorme prazer e a grande responsabilidade de apresentar o mais recente livro desta Escritora Mirandesa, Rio de Infinitos (Riu D’Anfenitos).
Não faltem. Vamos deixar que este rio inunde os nossos sentidos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A verdura do olhar / La berdura de l mirar

A verdura do olhar 

É em águas límpidas que me jogo
E da vida colho bálsamo azul.
Sensualidade florida, cachoeira arrebatada.
Língua sem freio, macia, desencravada.

Só te ama quem por ti se lança sem decoro.
Quem se faz verbo e se conjuga no infinito.
Quem se magoa e se desnuda clara e bravia.
Te diz princípio, aventura. Nunca servil.

Ternura desfiada em flauta pastoril.
Cor de giesta e urze. Fala mirandesa. Festiva.
Âncora e eternidade.
Ribeira que canta a verdura do olhar,
Debruada de candura.
 

 La berdura de l mirar

Ye an augas claras que me jogo
I la bida s´ antende bálsamo azul.
Sensualidade florida, cachoeira arrebatada.
Lhéngua sien trabon, macie, zancrabada.

Solo t'ama quien por ti se lhança sien bargonha.
Quien se fai berbo i se cunjuga ne l'anfenito.
Quien se pica i se znuda clara i brabie.
Te diç percípio, abintura. Nunca serbil.
Buntade de bestir saia i corpete.

Soudade zlida an fraita pastoril.
Quelor de scoba i urze. Dança Mirandesa. Festiba.
Áncora i eiternidade.
Ribeira que canta la berdura de l mirar,
Debruada de candura. 


Teresa Almeida Subtil



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

L sonido de la senara / Melodia da seara


Nota de redação: A Seara Nova publica, nesta edição, um poema escrito em língua mirandesa, traduzido para português pela autora. Num contexto de cada vez mais intensa massificação cultural, pretende-se assinalar o mérito do estudo e da prática da língua e cultura mirandesas, como instrumento de resistência a esteriótipos culturais e factor de emancipação e desenvolvimento do interior do país.


 L sonido de la senara


De l berano la selombra, la boubice, la seduçon.
Tiempo moço i manos paridas de palabras ambergonhadas.
Manos q'ampálpan las cinzas i l bentre de la casa.
I la binha zértica a reclamar ls mostos i l rebolhiço.

Bazies, las tulhas son arcas de decoraçon.
L carino geme ne l sobrado i mius passos
Son campanas que dróban ne ls abraços sien tornar.
Perros i ls gatos (i las abes de la nuite) son bistas
I l´airico, ambencible, cubre la soudade que bózia.

De l rescaldo guardo l'oulor, l carino
I la colheita. L sonido de la senara. I la rebuolta.
I ne l'afago de la poesie partelhada cumo sustento
çcubro agora l carreiron de caminos outros.
Las eiras seran siempre adonde (i cumo) quejires.

Melodia da seara

Do estio a sombra, o desvario, a sedução.
Tempo moço e mãos paridas de palavras a recato.
Mãos que apalpam as cinzas e o ventre da casa.
E a vinha desértica a reclamar os mostos e o reboliço.

Vazias, as tulhas são arcas de decoração.
O carinho geme no sobrado e meus passos
São sinos que dobram nos abraços sem regresso.
Cães e os gatos (e as aves noturnas) são paisagem.
E a brisa, indomável, fecunda a saudade que grita.

Do rescaldo guardo o cheiro, o afago
E a colheita. A melodia da seara. E a revolta.
E no afago da poesia partilhada como alimento.
Desvendo agora o trilho de caminhos outros.
A eira será sempre onde (e como) quiseres.

Maria Teresa Almeida

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sei teus sinais / Sei tues seinhas

Sei teus sinais
Sei teus sinais


Cada socalco tem sua própria chama
E há lugares onde lugar não conheço e teimo.
Experimento a subida e desço em descaminho.
Em mistérios e interrogações flutuo.
E olho ao longe um lugar.
Como se tivesse cor e cheiro.
Ainda que volátil. Mais espírito que peso.

E escrevo a desnorte. E assim me envolvo.
Laços de seda e de murmúrios. Palavras-asas
Que perpassam e nos enleiam.
Sei teus sinais
Ponto de apoio – infinito voo.



Sei tues seinhas

Cada recalço ten sue própia chama
I hai lhugares adonde lhugar nun conheço i anteimo.
Spormento la chubida i abaixo an çcamino.
An mistérios i anterrogaçones sbolácio.
I uolho al loinge un lhugar.
Cumo se tubisse quelor i oulor.
Inda que dezipado. Mais sprito que peso.

I scribo sien tino. I assi m’ arrolho.
Lhaços de seda i de marmúrios. Palabras-ailas
Atrabéssan i mos amarfanhan.

Sei tues seinhas
Stribo-me – anfenito bolo.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Caminhos de humanidade


Não sei se os passos estão desenhados no firmamento
Involuntários serão e potenciadores de tempestades…
Há raios entre as nuvens, poderosas energias
que derrubam portais de esperança
e estilhaçam lampiões de imaginação.

E o que parecia amor consentido pode virar medo,
espada de Demóstenes na cabeça do mais prevenido.
E o que parecia amigo pode ser perigo, argúcia,
maldade, porque não dizê-lo? Sim, machismo puro,
larvar descriminação. Poema escuridão.

Num virar de página, camuflado de cumplicidade,
circula a ideologia e a poesia eivada de promiscuidade.
Salve-se a grandeza da igualdade. E quando ergueres a espada,
não chafurdes na lama. Dá primazia ao mundo que reclamas.
Ao direito e à amizade. Que teus passos te elevem
e desbravem caminhos de humanidade.

Teresa Almeida Subtil


domingo, 22 de outubro de 2017

Olhos-seara



Olhos-seara quebrados em secura
Mãos de solidão e claridade
Odor do feno. Sensualidade
À solta na colina
Fogoso Verão
Que se prolonga
No sopro

Outono
Nas palavras
Que nos despem


Teresa Almeida Subtil




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Breve o voo


 Breve o voo. Infinito o amor.
E tão íntima a poesia que me deixaste.
E as flores e os perfumes. E a liberdade.

As palavras que me deste e as fontes cristalinas
Glorificam-te. E do teu nome brotam as mais doces melodias
E as amargas também.
Porque neste verão partiste, minha mãe.

Percebo-te em mim, tão leve como o beijo
E o sentimento da manhã. E o teu passo é meu
E cada momento te pertence. Olhar que elevo.
Azul intenso. Tão breve!

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Setembro me trouxe

Setembro me trouxe

A palavra é, agora, um sopro de alma
A declinar numa folha de Setembro,
por vezes calma, outras ventania.
É esta saudade entre a lágrima e a alegria
vertida num rio que me corre dentro.

É o canto da cotovia na ponta da oliveira.
Que sem melodia, nem o sumo da ideia
me escorregaria na letra, nem o fio do verso
seria de origem duriense. Setembro me trouxe
e doce é a uva e a vindima que na cuba floresce.

Serei sempre laranja do pomar
que almeja o sol na pele. E ave de alto sonhar.
E voo que me cresce. E a sede de ti.

É meu passo.
Festa da vida que em mim se ergue.
Setembro me trouxe.


 Poesia e pintura de 
Teresa Almeida Subtil

domingo, 17 de setembro de 2017

Assomadeiros Resbalinos


Ardo ne l deseio de bolar,
inda que saba q´hai assomadeiros resbalinos,
altas faias an que me puoda prender,
i nuobos i retrocidos caminos que l suonho precura
i anque l miu pensar
quede colgado i tembre mirando l peligro,
sien la palabra q´amente
la berdade i l resfuolgo de l miu sentir. 

Tengo ganas de bolar.
Esta paixon ye cumo un riu de querer fondo,
custoso de secar. Chama-se lhéngua mirandesa.
Solo s’astrebe quando se sinte la bertige de la caída,
mas ye ende que l bolo lhieba gusto i plenitude.

Talbeç seia un bolo maternal, buído na calor
i ne ls beisos de la fala
quando inda nun se sabe falar. Cuido you
que quien me dou de mamar, dou-me, tamien,
este deseio, sien frenos, de sbolaciar.

Fago l risco nas alturas,
porcuro fuorça nas alas que la curjidade me dou.
Nun quiero quedar a meicamino,
quiero antrar ne ls sonidos i na guapura deste falar.

La felcidade stá an anteimar.

Mirantes escorregadios

Ardo no desejo de voar,
ainda que saiba que há mirantes escorregadios,
altos penhascos em que possa encalhar,
e até novos e retorcidos caminhos que o sonho procura
e onde o meu pensamento
fica suspenso e treme ao olhar o precipício
sem a palavra que diga
a verdade e o ímpeto do meu sentir.

Tenho fome de voar
por dentro da tua simplicidade e beleza.
Esta paixão é como um rio de querer profundo,
difícil de secar. Chama-se língua mirandesa.
Só se ousa quando se sente a vertigem da queda,
mas é assim que o voo ganha gozo e plenitude.

Talvez seja um voo de colo, bebido no calor
e nos beijos da fala
quando ainda não se sabe falar.
Quem me deu de mamar, deu-me, também,
este desejo, sem freios, de esvoaçar.

Traço o risco nas alturas,
procuro força nas asas que a audácia me deu.
Não quero ficar a meio caminho,
quero entrar na sonoridade e na beleza deste falar.
A felicidade está em ousar.

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)


Dia da Língua mirandesa.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Vou levar-te à festa!

Lançamento do Livro “ Rio de Infinitos/Riu D’Anfinitos”
Sáb 09/09 - 14:30 (na sede da Junta de Freguesia).
Comissão de Festas da Nossa Senhora das Graças - LAGOAÇA


És o meu vestido novo e eu quero a alegria que me amanhece e me leva na palavra degustada. Cada dia é um vestido a estrear e traz no ventre um novo paladar. Trago comigo a vontade de renascer nos passos em que voava, nos beijos que me cresceram. Sem desejo a vida não é nada. E eu quero voar sobre o cheiro das pétalas da minha aldeia. Sentir e ter corpo de banda filarmónica, a música que fazia e faz das ruas da minha aldeia as mais belas do mundo. "Chegou a música!" E todos corriam e os olhos tinham a magia e a alegria de viver num vestido a estrear. Um vestido sonhado o ano inteiro. Ainda que fosse uma blusa apenas, tinha as cores em que a pintáramos. E cada passo entrava na orquestra a um ritmo em que se jogavam todas as notas de um livro: o nosso. “Sem música nem a vida faria sentido” (Friedrich Nietzsche).
Vamos! Este livro é um pássaro a sorver o orvalho poético de cada amanhecer e, como dizia Alexandre O’Neil, que as palavras nos beijem como se tivessem boca.
Teresa Almeida Subtil

Gravada a ouro esta apresentação de Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos. O reencontro, os afetos ... a minha terra - Lagoaça.







segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Vão de infinitos / Preça d'anfenitos

Vão de infinitos

É a varanda de grades da cor do tempo
que me leva em breve enleio e receio de entardecer.
É na varanda solta no descampado do olhar
que me debruço e me entronco na árvore onde me fiz.

É o toque na parreira de pele retesada
e rasgada, que me diz da erupção que sentia
e das escadas que subia e descia,
querendo entender-me no emaranhado da vida.

Era em vão de infinitos que a varanda se espraiava.
E eu, debruçada, a sentir-me nada, não cabia em mim.
E eu, num chão de inquietudes a agigantar-me
para as dúvidas que nunca resolvi.

Aninhada em ti,
parecia que a aldeia ao longe era igual à minha,
embora a raia nos falasse de outra língua
e de outro país. Na minha varanda percebia a raia
e adivinhava que nem a vinha, nem a aldeia que avistava,
encobriam o reboliço do rio
que bem fundo cavava o fragaredo.

Nem eu nem o rio conhecíamos limites
e apesar do aperto e da inquietude,
saltávamos e corríamos
na pressa dum tempo a descobrir.



Preça d´anfenitos

Ye la baranda de grades de la quelor de l tiempo
que me lhieba an brebe anleio i arrecelo d'entardecer.
Ye na baranda suolta ne l çcampado de l mirar
que m´astribo i m´antronco n´arble adonde me fiç.

Ye l toque na parreira de piel retesada
i resgada que me diç de l manantial que sentie
i de las scaleiras que chubie i abaixaba,
querendo antender-me ne l eimaranhado de la bida.

Era an preça d'anfenitos que la baranda se spraiaba.
I you, debruçada, a sentir-me nada, nun cabie an mi.
I you, nun suolo d'anquietudes a agigantar-me
pa las dúbedas que nunca resolbi.

Arrimada a ti,
parecie que l'aldé al loinge era eigual a la mie,
anque la raia mos falasse d'outra lhéngua
i d'outro paíç. Na mie baranda percebie la raia
i çcunfiaba que nien la binha, nien l'aldé q'abistaba,
tapában l rebolhiço de l riu
que bien fondo scababa l fragaredo.

Nien you nien l riu coinciemos lhemites
i indas que l aperto i l'anquietude,
saltábamos i corríemos
na priessa dun tiempo a çcubrir.

In "Rio de Infinitos/Riu d'anfenitos" de Teresa Almeida Subtil





quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Malas à porta


"Professor que é professor, em Setembro tem as malas à porta." Há-de correr bem, dizia ela - otimista por natureza. E eu fiquei a pensar que já tive as malas à porta - muitas vezes (e havia muita adrenalina em tudo isso) mas, se isso me acontecesse depois de constituir família... deixava o coração para trás ...levava-o comigo? Pensamento matinal demasiado arrepiante.
Um dia pus uma cruz no distrito do Porto, a título definitivo, mas depressa me trouxeram de volta à origem. Hoje penso que a opção foi acertada. Fez parte de um percurso encantador. E ao Porto vou sempre que posso. A cidade é linda de morrer porque também é minha. Vou cirandando...

Teresa Subtil

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Festival Intercéltico. Convite

Foto de FESTIVAL INTERCELTICO DE SENDIM.

Pino do verão, da música e da proa da língua.
Sangue celta a correr pelos dias, pelas noites e pelas melodias.
É no arrepio da dança que vivemos e fazemos a festa.
E os instrumentos levam as palavras a brilhar e a cirandar.
Corpo e alma. Pois quem não bailou que baile
no requebro do verbo, na alegria do povo que somos,
na voz que geme, na tristeza e no verso que afeiçoa;
no perfume silvestre que sublima. É a cultura que se espraia
no palco e no terreiro. Apesar do grito. 
É o hino à vida que se alcantila.
É sair voando ao intercéltico, festival de estio, festival de proa.


Ye l cherume de l berano, de la música i de la proua de la lhéngua.
Sangre celta a correr puls dies, pulas nuites i pulas cantigas.
Ye ne l'arrepelo de la dança que bibimos i fazemos la fiesta.
I ls anstrumientos lhieban las palabras a relhuzir i a çarandar.
Cuorpo i alma. Pus quien nun beilou que beile
na droba de l berbo, na alegrie de l pobo que somos,
na boç que geme,  na tristeza i ne l berso que mos gusta;
no prefume silbestre que chube. Ye la cultura que se spabila
ne l tablado i ne l terreiro. Anque l bózio.
Ye l'hino a la bida que s' alhebanta.
Ye salir bolando al antercéltico, festibal de l tiempo e de lomiada.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Mãe


Será que ouviste o meu palpitar?

E a minha mão acariciar a tua, 
será que sentiste?
E os últimos beijos
 no teu rosto ausente,
percebeste-os mãe?

Na hora dura e fria, 
deslizei num rio de paz,
firme leito de afetos.
E no teu peito me deitei 
pela última vez.

Os teus olhos, minha mãe, 
haviam partido,
mas os meus adoravam-te na luz que me deixaste.
Luz que, na partida, quis dar-te.
E o sossego da tua mão na minha.
Disse-te tudo, como sempre.

Estou aqui, mãe, como te dizia …  

Acariciei contigo os rostos que te queriam.
E te querem.
Passaste e viverás no amor que semeaste.

Mãe, eu vi as arribas a arder
quando à terra desceste.

Teresa Almeida Subtil

Foto de Carla Subtil Rodrigues.