O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

sábado, 3 de dezembro de 2016

Deixemos fluir

http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/12/deixemos-fluir.html?spref=fb

DEIXEMOS FLUIR

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Ontem, dia da Independência, olho, mais atentamente, a espada de El Cid, pendurada, carinhosamente, junto à porta de entrada. Um amigo trouxe-a um dia. Veio de longe, de propósito, e nem sequer se demorou. O tempo comia-lhe os passos, mas quis deixar um pouco de alma. É a espada do herói a que é afeito, de Burgos, a sua terra. Esta ideia de pertença a todo o mundo faz todo o sentido, através dos valores, da cultura e de algo primordial: a amizade. Chega a ser surreal uma espada ser símbolo de amizade. Mas tu ficaste na lâmina, no punho e na arte de quem ama a luta para fazer a paz – junto à porta de entrada ou de saída (talvez apenas de passagem- como a vida). Vieste e ficaste numa história de largos sorrisos, de cumplicidades e de lutas por um mundo melhor. Um gesto que traz à memória o tempo em que Miranda do Douro e Aranda de Duero viviam o auge da geminação e construíam pontes de cultura e desenvolvimento. Quantas vezes saltámos um rio que nos une, um salto num espaço que sempre foi nosso, apesar das fronteiras, apesar das hegemonias, apesar dos assaltos, apesar dos heróis nascidos nos altares. Também a língua nos foi berço e, se atentarmos que o mirandês é hoje entendido por 800 milhões de almas, como defendem alguns estudos iniciados por Amadeu Ferreira, percebemos a riqueza desta abrangência cultural.

Não te vejo, mas estás porque sabes estar. Ser amigo é dar a espada de despedaçar medos, sejam de que ordem forem. E se a fera vier pela calada da noite saberemos dobrar-lhe a sagacidade do olhar, porque a selva é em qualquer momento e em qualquer lugar (poderá ser esta uma das mensagens que quiseste deixar). Sempre perscrutei um potencial mundo num objeto singular, como um livro que nos viaja . E se viemos dos confins da desordem, como conheceremos os caminhos infinitos que nos habitam? Cada vez sabemos menos, é verdade, mas uma espada pode ser um pequeno nada que, à entrada da porta, nos aporta a imensidão do que não sabemos, mas do que sentimos. E o medo sai, assim, pela porta e pela palavra. Deixemos fluir! dizia Jorge Nuno, outro amigo que, por aqui (Bird Magazine), vai semeando pérolas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016



Que trago?

… e o copo estava ali…
para trás as castanhas, a brasa,
o licor a repousar na adega 
a data, a hora, a etiqueta, a amora silvestre  …
até a laranja do pomar se remeteu
ao silêncio do inverno nas arribas.

Como disseste  em verso etílico e breve :
 deixa o açúcar
e percebe como arde um cálice de aguardente!
É verdade. Basta um trago
para silenciar a estridência das castanhas
e saborear as linhas de
um poema secreto.

E o copo é o corpo e a vida a passar
e o sabor vai tão depressa
que o corpo e a alma se deixam
plasmar de plenitude.

A beleza do copo é sentimental,
a antiguidade do balcão e a garrafa do canto
têm igual valor

e há palavras que me vestiste  
que se recusam a envelhecer.

Teresa Subtil


domingo, 6 de novembro de 2016

Reflexo


Na mesma sede caminhávamos:
o passo na cadência do desejo,
o corpo nervoso balançado
nos contornos do abraço
e a noite a fazer-se alvorada do olhar.
Era fremente o desejo de ficar.
Havia missangas a abrir caminhos
e no peito botões a saltar.
Era a poesia a acontecer
e a febre de a escrever na pele,
de a dizer no beijo.
Éramos reflexo de fonte,
sede a crescer na noite.

Teresa Almeida Subtil

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Linha é Tua


A linha do Tua, que conheci ligada à minha paixão, surpreendeu-me como quando te vi pela primeira vez. Tanto não. A beleza do percurso era demasiado atrativa, não tanto como o poder dos teus olhos. O corpo do rio era ousado, atlético, não tanto como o teu quando me colei a ele para a vida toda. Mas colou-se aos meus encantos aquele percurso sinuoso que não voltei a ver. Também não conhecia Bragança nem sabia que albergava um mundo de palpitações …

Teresa Subtil

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Degustar poesia

(praia de Matosinhos)


Corpo de rio, fome de mar 
Beijo moído de saudade
Verão despido no cume do amor
Cabelos esvoaçantes, brisa suave 
Seda tecida de abraço ausente 
Vontade quente derramada
na praia que só se sente

Se te despedes a frio de calendário
não me mostres caminhos escarlates
nem me devolvas ternuras reminiscentes

Espreitam-me melodias de outono,
sabores melancólicos de fim de dia, 
deambulações de invicta cidade,
sabores poéticos da noite na cave,
prazeres de lua concupiscente,
fazendo sua a rua da gente


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

La tue risa



Ambenteste l nabio, l puorto i l lhunar
i ne l'hourizonte planteste bioletas
na araige alguas lhetras
i la tue risa
era la coraige de l die a aportar
ne l beiral bazio de la mie puorta 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016


O que seria a vida

sem imprevistas tempestades,
caminhos desfeitos,
momentos impossíveis
e arrepiantes mirares?

E sem este amanhecer
que me toca como se eu fosse harpa
e me segreda o elixir de um poema,
o que seria a vida?

L que serie la bida

sien relhuzientes scarabanadas,
caminos sbarrulhados,
sfergantes ampossibles,
yegres mirares?

I sien este amanhecer
que me toca cumo se you fusse harpa
i me zunzuona l citre dun poema,
l que serie la bida?


Teresa Almeida Subtil

(imagem de Leonel Brito)

domingo, 31 de julho de 2016

IX ANCUONTRO DE BLOGUEIROS DE L PRAINO


                                                                20 de Agosto de 2016

PORGRAMA 
1)
-Pulas 9h 30m Miranda dará las buonas-benidas a las puortas de la Senhora de l Amparo.
- Pulas 10h antraremos na Casa de las Quatro Squinas (Casa da Lhéngua Mirandesa). Será neste sfergante que Júlio Meirinhos, Alfredo Cameirão e Fernando Subtil ban a dezir uas palabras acerca de la cultura mirandesa. Neste spácio tamien yá sabemos que la palabra ye para cumpartir.
Eiqui, un taquito bem mesmo a modo (yá stamos aquestumados a uas lhambiçqueirices de ls mardomos).
11h 30m - Passaremos de camino pul Salon Nobre de ls Paços de l Cunceilho, adonde mos spera l Persidente Artur Nunes, un mirandés que siempre fizo gusto an star cun nós neste juntouro.
12h - Dinis Meirinhos stará cula sue guitarra i ls afinadíssemos acordes, na amponiente Cuncatedral de Miranda de l Douro, la nuossa Sé Catedral.
13h 30m - L'almuorço será serbido ne l PUIAL DE L DOURO, an Aldé Nuoba i tenerá honras de mesa cun tradiçon.
2)
Pula tarde …
Pula tarde, teneremos inda l blogueiro Domingos Raposo que mos falará de cousas de la tierra i de las gientes.
Será an S. Juan de las Arribas que testos (pequeinhos) an poesie i prosa bolaran subre un riu que fai ls ancantos de l mundo anteiro. Se quejirdes traei un lhenço tabaqueiro al cachaço i ua bota (cun bino) al ombro, pieças amportantes na bida dun stramuntano.
Tornaremos al Puial de l Douro para uas cantiguitas de çpedida i un mordico.
L précio ye de 15 mirandesadas.
Fazeremos por todos un cumbíbio adbertido an que l´amisade i la cultura se poularan.
Sós ua frol ne l camino
çfrente de todas.
Ye l´alegrie,
la gana de bibir
i spargir la cultura mirandesa
que te fai un blogueiro de l Praino.
Assenta-te mesmo eiqui ou pul telfone.
Ls mardomos:
Tresa Almeida Sutil – 914 748 784
Delaide Munteiro _ 918 217 183
Tiegui Albes _ 968 138 843

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Miranda é uma cidade musical

Era dia da cidade e o povo saiu à rua
No salão nobre louvaram-se mirandeses
Que honraram a sua raiz
E a cidade quis enaltecer
Aqueles que deram a conhecer
O berço, terra mãe, matriz gloriosa
Homenagens merecidas que ficam bem
A quem o sabe reconhecer
E uma exposição de fragmentos da nossa terra
Pintados por quem a ama
Eu estava lá e ouvi com agrado
Em cada bocado uma tela
E em cada tela um grito de alma
Uma canção, um poema

A vida é multifacetada
E quando tudo se revolve em alegria dentro da gente
É que se sente este afago e esta proa
De ser povo em união.


Pela tarde subimos ao Museu terra de Miranda
Abraçámos os Galandum Galundaina,
Louvámos 20 anos de profícua musicalidade
A padronização da gaita-de-foles
A valorização da língua mirandesa 
E em paralelo, em íntima dissertação
Louvo a necessária convenção.


Miranda é uma cidade musical
Sem raça nem credo
E com música encerrou o dia
A nossa banda estava de prontidão
E, pelas ruas, fez-nos música e emoção
Todos fomos coração, coração sem idade
Com a seleção sofreu e vibrou
Era o dia da cidade e somos vencedores
com vontade sem igual de gritar bem alto
À frente Portugal!

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Miranda ye ua cidade musical

Era die de la cidade i l pobo saliu a la rue
Ne l salon nobre lhoubórun-se mirandeses
Q'honrórun la sue raiç
I la cidade quijo einaltecer
Aqueilhes que dórun a coincer
L brício, tierra mai, matriç gloriosa
Houmenaiges merecidas que quédan bien
A quien le sabe recoincer
I ua sposiçon de cachicos de la nuossa tierra
Pintados por quien l'ama
You staba alhá i oubi cun agrado
An cada cachico ua tela
I an cada tela un grito d'alma
Ua cançon, un poema

La bida ye multifacetada
I quando todo se rebuolbe an alegrie andrento de la giente
Ye que se sente este afago i esta proua
De ser pobo an ounion.


Pula tarde Chubimos al Museu Tierra de Miranda
Abraçámos ls Galandun Galundaina,
Lhoubámos 20 anhos de guapa musicalidade
La padronizaçon de la gaita-de-fuoles
La balorizaçon de la lhéngua mirandesa 
I, an paralelo, an íntema dessertaçon
Lhoubo la neçaira cumbençon.


Miranda ye ua cidade musical
Sin raça nien credo
I cun música ancerrou l die
La nuossa banda staba de prontidon
I, pulas rues, fizo-mos música i eimoçon
Todos fumos coraçon, coraçon sien eidade
Cula seleçon sofriu i bibrou
Era l die de la cidade i somos bencedores
cun buntade sien eigual de gritar bien alto

Adelantre Pertual!

Teresa Almeida Subtil 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Raiz de arçã / Raiç d´arçana



Aqui a palavra é ninho
Raiz de arçã
Passo estribado
Beijo, seda puríssima
Floresta a uivar
Noite atrecida
Alvura a espigar o dia
Desassossego
a espicaçar a chama
Riso às braçadas
Abraço a cheirar a rosmaninho
Espiga entrelaçada
Amor renascido
Em terras da Lombada.

Raiç d'arçã

Eiqui la palabra ye nial
Raiç d'arçã
Passo stribado
Beiso, seda puríssema
Floresta a oulear
Nuite atrecida
Albura a spigar l die
Zassossego
a spicaçar la chama
Risa a las braçadas
Abraço a cheirar a tomielho
Spiga antalisgada
Amor renacido
An tierras de la Lombada.

Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Abril 2016

Este não é um Abril qualquer,
é memória, dor presente, saudade de futuro,
pássaro a nascer, poesia sempre.
Semeado de liberdade, Abril é ainda uma criança
a sorrir e a esconder-se, descalço e despido, perdido por aí.
Este não é um Abril qualquer,
traz uma mochila como pendão e arrepio de humanidade,
é Abril profundo, fome de mudança e de verdade.
E no olhar poesia, sempre. Mesmo comprimida
em campos de sofrimento, a poesia é sentimento,
pulsar de vida, vontade de sentir e cantar o amor
em cada passo e em cada batida de inquietação.
Abril 2016 (em mirandês)
Este nun ye un Abril qualquiera,
ye mimória, delor persente, soudade de feturo
pássaro a nacer, poesie siempre.
Sembrado de lhibardade, Abril ye ainda un nino
a sunrir i a scunder-se, çcalço i çpido, por ende.
Este nun ye un Abril qualquiera,
trai ua mochila cumo pendon i arrepelo d´houmanidade,
ye Abril perfundo, fame de mudança i de berdade.
I ne l mirar la poesie, siempre. Anque atafanhada
an campos de sofrimiento, la poesie ye sentimiento,
pulsar de bida, gana de sentir i cantar l amor
an cada passo i an cada batida d´anquietaçon.
Teresa Almeida Subtil

Gosto

segunda-feira, 21 de março de 2016

Mar de bruma

Mar de bruma Se há um mar de bruma em que me sinto envolvida se em secreta harmonia me prendo e suspendo, se a pergunta repetida tem nuances de hora e de partida, se na vida não sei se vou ou se venho, se sou rio a estremecer de encanto e neblina que enlouquece, se sou pura imaginação, se sou palavra, flor matutina com vocação de estrela, se sou alegria e pranto, deslumbramento sem razão, se não encontro a porta de saída, deixo a pergunta mil vezes repetida, deixo a palavra, frágil, toldada e perdida, deixo o beijo e o coração. Mar de nubrina (die de la poesie) S' hai un mar de nubrina an que me sinto arrolhada, s' an secreta harmonie me prendo i suspendo, se la pregunta repetida ten arressaios de chegada i de partida, se na bida nun sei se bou ou se bengo, se sou riu a tembrar d'ancanto i nubrina q' amboubece, se sou pura eimaginaçon, se sou palabra, flor purmeiriça cun bocaçon de streilha, se sou alegrie i pranto, se sou çlumbramiento sin rezon, se nun ancuontro la puorta de salida, deixo la pregunta mil bezes repetida, deixo la palabra, andeble, toldada i perdida, deixo l beiso i l coraçon.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 19 de março de 2016

A meu pai

Quando l riu ten este sereno i esta melodie,
fago de l siléncio un solo arrimo i galgo las arribes
sentindo l sol na piel de cada fruito q'amadurece.
Miro la tue mano a ouferecer-mos aqueilha laranja
d'ambelhigo, de piel fina - acabada d’ apanhar –,
cumo se fura un persente de ls cielos.

Si, ye berdade: manos de pai son manos de Dius.

Teresa Almeida Subtil

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher



Fico a olhar flores, cartas, poemas
e abrir momentos de que o coração se fez guardião.
Fico a saborear a alegria que o poeta canta.
Com gratidão.

Fico a sentir silêncios que ecoam
nos caminhos da dor, do ódio, da raiva,
do olhar alucinado que assalta, à socapa.

E é neste arrepio que a voz grita, desvairada.
Para a defender há um dia feito mulher.
E é pena!

Que não faltem flores, cartas, poemas
e, mais que tudo, momentos de dar e receber.

Teresa Almeida Subtil


terça-feira, 1 de março de 2016

Ua frol para Amadeu Ferreira

Sós aquel que siempre s´ancuontra al mirar
l lhugar adonde las palabras tenen l sonido
de la tierra i de las gientes. L lhugar adonde las palabras
tenen sentido de bida chena a ressumar nua sonrisa,
nua frol a çpuntar nun camino qualquiera de l praino.
Sós aquel que siempre miramos ne l puial
adonde la lhéngua mirandesa relhampeija,
adonde la pessona cuntina a caminar,
cun sereno, norteando ls passos n’ alegrie de bibir.
Sós l poço adonde bamos a buer l que mais amporta,
sós aquel de quien dezimos: que buono haber-te coincido!
Sós aquel que siempre stá anque tengas partido.

Uma flor para Amadeu Ferreira

És aquele que sempre se encontra ao olhar
o lugar onde as palavras têm o som
da terra e das gentes, o lugar onde as palavras
têm sentido de vida plena a assomar-se num sorriso,
numa flor a despontar em qualquer caminho do planalto.
És aquele que sempre vemos no poial
onde a língua mirandesa relampeja,
onde a pessoa continua a caminhar,
serenamente, norteando os passos na alegria de viver.
És o poço onde vamos beber o que mais importa,
és aquele de quem dizemos: que bom ter-te conhecido!
És aquele que sempre está, mesmo que tenhas partido.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mesmo sabendo que o voo do verso
era inalcançável, vestia-me com a audácia
 de quem desistiu de pontuar as frases.
Sabia que as despias na frescura das águas
que – febris - se precipitavam.
E era sempre uma cumplicidade faminta

a debulhar-se em trechos de íntima ternura.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 24 de outubro de 2015

Amanhecer no Gerês



Ao despertar qualquer varanda é palco de contemplação, um convite à evasão dos sentidos: é o apelo da natureza, é a emoção que nos pendura sobre o verde talhado a várias altitudes, é a neblina matinal que nos toca num arrepio de madrugada.
Não conseguimos ver o rio porque as árvores se lhe entregam e entrelaçam como se fora um romance de encantamentos. Não conseguimos vê-lo, mas ouvimos o seu palpitar impetuoso, o seu cantarolar entre os seixos que vai arredondando em massagens de corrente e vai fazendo caminho na direção de um destino infinito que lhe pertence. Talvez seja esta noção de movimento perene que nos prende ao momento, sabendo que a vida se vai fazendo de pequenos passos e, se não soubermos aproveitá-los, ficaremos com as mãos cheias de coisa nenhuma.
Pressinto um toque romântico que me eriça a pele ao reescrever a poesia do olhar, agora maduro, mas que - aqui - já foi tão verde como as folhas que teimam em manter a tonalidade primaveril ou como os veados que dominam graciosamente a paisagem e desfrutam de total liberdade. Passaram por mim tantas estações, alguns apeadeiros dissonantes, mas é gratificante redescobrir este bosque imaculado. E ao correr da pena deixo cair algumas gotas de orvalho matinal, este pulsar em que me sinto e confundo, como se fosse um pássaro que se enche de audácia e esvoaça para o sítio onde se sente feliz.
As palavras são, assim, esse poleiro de assombros e evasões. É verdade que tropeçamos em estados de alma que nos dizem que somos muito mais que nós mesmos, que não cabemos no sítio onde estamos e, por isso, voamos - nas palavras.

Embrenhados na serra, descobrimos fontes dispersas, pausas revigorantes. Há quem nunca esqueça as sedes da Guiné e vá abraçá-las e desfrutar do seio líquido da terra (a guerra gritará sempre na alma de quem a viveu).
Atrevo-me a dizer que experimentamos uma subtil intimidade com a natureza no rumorejar que nos acompanha, eco de fios de água a serpentear por ali. Parecem tão puros como os sentimentos. Depois, nos meandros da objetiva, surgem azuis intensos, verdadeira alquimia de vida e de amor.
Na serra do Gerês há partes selvagens e intocáveis. Ali a natureza é ela mesma em toda a sua biodiversidade. Sabemos que o parque nacional Peneda Gerês é considerado pela UNESCO como Recurso Mundial da Biosfera.
De facto, é grande a variedade e a riqueza vegetal devido às variações de altitude e às influências oceânica e continental. A cabra, o cavalo e a vaca surgem soltos como companheiros de jornada.
E, de repente, o Outono abre portas, tão lentamente, como se os deuses sussurrassem baixinho um poema escrito em requebros de beleza, um poema que é terra, que é alma, que é vida.
No Gerês experimentamos, também, um sentido duro de existir, ao vacilarmos nas curvas onde o fragaredo se mostra na iminência de ruir. As penhas parecem empurradas, em desequilíbrio permanente, como um país a doer. E dizem que os demónios vociferam em cascatas alucinantes. Debruço-me nos miradouros e deixo-me enfeitiçar. Olho e ouço cantares altivos de montanha e esculturas cinzeladas de espanto.
Por aqui se respira e se entende a presença e a alma poética de Torga:
“Serra!
Há qualquer coisa que em mim se acalma,
Qualquer coisa profunda e dolorida
Traída, Feita de Terra e alma.
 Uma paz de falcão na sua altura
 A medir fronteiras!
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.”

Parto com fome de voltar, para saborear a magia do amanhecer no Gerês, este desejo insubmisso de acordar em lençóis de neblina, em beijos humedecidos, nesta sensualidade a derramar-se à flor da pele. Parto com uma agradável sensação de leveza, sentindo em pleno o ser físico e espiritual que somos, em qualquer momento e em qualquer lugar.

Teresa Almeida Subtil


(Texto publicado na BIRD MAGAZINE, em 21/10/2015)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Feira do Livro GCM - 2014


Feira de l lhibro

Cheguei al jardin cula nuite a cair i l cielo  a amenaçar mudar a qualquiera momiento, tal cumo la bida: debrebe i resbalina.
Ls lhibros passórun a pertencer àquele lhugar, ls caminos perdírun la dureza i ls passos tornórun-se lhebes, mais lhebes que nunca. Ye siempre esta sensaçon d'ouséncia, de bolo, de star i nun estar. Ye l prazer de me perdir ne l berso solto i a ganhar bida própia - na boç, na spresson, na melodie i na antrega de cada un. Alguien que, por sfregantes, saliu de si i festeijou la palabra amigo. 
L lhibro biaija de mano an mano, i nele l alegrie, la rábia, l amor i l spanto de quien l screbiu. Stou cierta de que, de cada beç q'un lhibro s´abre, s´ ancuontra algo de nuobo i que bamos percebendo la forma cumo l'outor se bai çpindo, debagarico.
 La chuba nun chegou a cair, mas you senti-la nas lhágrimas que derramei por drento, ne l poema que la nuite screbiu i ne l cheiro de cada pétala que guardei ne l peito.

Naquel abraço, scrito i dedicado, seguiu l afeto i la berdade dun sfregante que baliu la pena.


Cheguei ao jardim com a noite a cair e o céu a ameaçar mudar a qualquer momento, tal como a vida: fugidia e imprevisível.
Os livros passaram a pertencer àquele espaço, os caminhos perderam a dureza e os passos tornaram-se leves, mais leves que nunca. É sempre esta sensação de ausência, de voo, de estar e não estar. É o prazer a deambular no verso solto e a ganhar vida própria - na voz, na expressão, na melodia e na entrega de cada um. Alguém que, por momentos, saiu de si e festejou a palavra amigo.  
O livro viaja de mão em mão, e nele a alegria, a raiva, o amor e a perplexidade de quem o escreveu. Estou certa de que, de cada vez que um livro se abre, se encontra algo de novo e que vamos percebendo a forma como o autor se vai despindo, devagarinho.
 A chuva não chegou a cair, mas eu senti-a nas lágrimas que derramei por dentro, no poema que a noite escreveu e no perfume de cada de pétala que guardei no peito.

Naquele abraço, escrito e dedicado, seguiu o afeto e a verdade de um momento que valeu a pena.


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 29 de julho de 2015


Para quem quiser ser blogueiro, pelo menos um dia.
Para quien quejir ser blogueiro pul menos un die.

Todos serão bem-vindos.
Todos seron bien- benidos.


Blogueiros de l Praino 2015

Astanho será die  22 de Agosto
Na Speciosa

Ide i lhebai amigos, tamien!

A la pormanhana:

Chegada pulas 9 horas an pie de l´Eigreija

Besita guiada a l´aldé i poemas botados al aire, an mirandés, lhionés i asturiano

Pulas 10.30 horas, na Eigreija:

         Dinis Meirinhos- Pequeinho recital de guitarra
                                   Músicas:
                                    Fantasia Húngara i la Catedral

          Dinis Meirinhos ye nieto de la tierra i l pobo será cumbidado a assistir al recital

A las 11 horas, un taquito na casa de la mardoma speciosana i besitas: al sítio dadonde l Citote saliu, al Forno i a la Cruç i Fuonte de l Cereijal. 
Besita a l´Eigreija de l Naso









Pulas 13.30 horas, almuorço ambaixo de ls carbalhos, para se repetir l que fui ne l pormeiro Ancontro de Blogueiros, an 2008.

L armuorço será de chicha assada ne l lhume, a botar fumo eilhi mesmo.

L précio ye 15 ouros
Alhá achemos quien mos faga l almuorço, eilhi mesmo, a las carbalheiras, sien chubida de précio. Nun fumos capazes de l sacar por menos de 15 ouros, por muito que fusse resgatiado an bários sítios.
L que amporta ye que quedemos cuntentos, nós i la cozineira.
Ye serbido pul Malharrés cumo l anho passado.
L rancho:
- Melon cun persunto, selada d´oureilha, selada de garbanços cun atun, tabafeia de Malhadas, assada.
- Chicha de bitela assada alhá, (posta) cun selada i batatas cun tareia
- Bolha doce i selada de fruta
Ls mardomos hán-de lhebar uas lhambiçqueirices para quedarmos cun la boca doce pal café que cad´un pagará na Casa de l Naso.

A la Tarde

La tarde ye na Speciosa que la mardoma speciosana nun fai por menos.

Na ACRS:

Pulas 15 horas, dues palhestras de ua meia hora cada ua, pequeinhas, para que nun mos cansemos i nun mos deia l suonho:

                                  Associaçon Faceira- Pendones de la Nuossa Tierra,
                                                                   cun Ricardo Chao
                                  Associaçon de la Lhéngua i C.M- Carril Mourisco i cruzes deiqui,
                                                                    cun Alcides Meirinhos

Pulas 17 horas, ua merenda cun cousas de la nuossa tierra




Las anscriçones deberan ser feitas até die 20 de Agosto

Para bos assentar:


Eiqui an quementairo
adelaide.monteiro@gmail.com
elf_vlf@hotmail.com ( Tiégui Albes)
918217183- Delaide Monteiro
914748784- Tresa Almeida
     
Lhebai amigos, tamien!!!!
Fazei la nomiada por adonde andebirdes. Isto puode ser ua sementica que ancomeçada a abrolhar an nuobos falantes.


(Querendo podeis buer un cafezico no Naso, antes de ir a caras a la Speciosa, Eiricas abaixo, que alhá só hai apuis d´almuorço. Senó, só apuis cun l taquito na casa de la mardoma).
Bá!, mas puode ser que Nuossa Senhora de la Cunceiçon faga un milagrico pa ls retardatários de café i que amanhe ua fuonte que mane, de l lhado de trás de l´eigreija, a ua selombra de parreira. I digo-bos que si ye buono, que a mi yá me tocou un milagre dessas!
Mas nunca fiando!... Nuossa Senhora puode nun star birada para milagres!!!!!