quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O buraco da moura










O lugar era corpo inteiro. Alvoroço dos sentidos.
E a canícula do dia era ali que se despia.
Ao fundo a cicatriz e a sede. Santa a fonte,
incrustada no fragaredo. Eu apenas espreitava
a gruta profunda e escura. Amava a melodia
daquele fio de água. E a ternura tresmalhada.

E quando a tarde amolecia perdidamente
e os acepipes atiçavam a vontade, era ali
que se degustavam os melhores frutos do mundo.
Douro naturalmente. Nem os deuses resistiam.

E o verso é agora regresso, fralda de memória.
Desafio incontido. Vinho desarrolhado.
Mistério decantado. Linho estendido. Brancura imaculada.
Paz e espada. É fim de jornada, seda e frescura.

Pele macia, aveludada. Perfume e flor do dia.

Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Proximidade / Achego


Proximidade

A música da palavra já era minha,                                                
o romance escrevia-se no vento
e o tempo entre nós tinha paladar
bebido a tragos de sofreguidão,
pensamento que o verão despia,
rio inteiro de entrega e poesia.

Ah! E aquela passada apaixonada
melodia, anúncio, proximidade.
Não direi que foi a noite mais bela
mas aquela em que senti estrelas
massajando meu corpo dourado,
corpo desperto num desejo louco.

Mais intenso, só aquele beijo,
aquela noite, aquele lugar,
arrepio do primeiro toque
incêndio do primeiro olhar,
e um desejo infernal de ficar.

  
Achego

La música de la palabra yá era mie,
L remanse screbie-se ne l aire
i l tiempo antre nós tenie gusto,
buído cun gana zmedida,
pensar que l berano znudaba
riu anteiro d'antrega i poesie.

Ah! I aqueilha chancada apaixonada
melodie, anúncio, achego.
Nun dezirei que fui la nuite mais guapa,
mas aqueilha an que senti streilhas
dondiando l miu cuorpo dourado,
cuorpo spertado nun deseio boubo.

Mais fuorte, só aquel beiso,
aqueilha nuite, aquel lhugar,
arrepelo de l purmeiro topar
ancéndio de l purmeiro mirar,


i ua gana anfernal de quedar.

Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Poesia de cave




Eu até me atrevia a dizer o poema. O tal que se entrelaçava nas cores da noite e refulgia intenso como a chama que ardia no meu copo. E da chuva miudinha inventada em resquícios de partitura.
O tal que tinha a espessura do chocolate negro que saboreava.
Eu até me atrevia. A poesia que saía da luz do canto era evaporada, intensa. Elixir e agrura do dia a dia. Mas passava as galáxias. Malha fina, escrita com as vísceras e a alma que não sabemos onde fica, mas que vibrava nos olhos da escuridão. Poesia de cave. Escrita com o corpo inteiro. Passos andados. Poetas consagrados. E as guitarras, por ali, eram afinadas no verso mais arrepiado.
Eu até me atrevia, mas o farragacho que trazia perdeu alturas. A bateria foi esmorecendo …
E na mochila que havia? Medicamentos que o otorrino me receitara. Nem a alminha dum poema. Coisa rara!
De cor? Essa ardeu na fogueira. Já não a procuro. Está tão entranhada que não é fácil desarrolhá-la. Como o casaco quentinho e solto de traça antiga que a Isa adora de paixão. Ainda tem a assinatura do coração. Faltava o “Rive Gauche” que provocou tantos arrebatamentos. A essência ainda se pressentia na palavra.
Cantei, a medo. Baixinho. Fiz parte do coro. E senti a vibração da poesia que não disse, mas que poderia crescer, por ali …
Aromática 
Erva cidreira


Teresa Almeida Subtil
em "Pinguim Café"
22.01.2018

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A meus netos

Como um livro que ao vento se desfolha E folha a folha se oferece e surpreende. Como riso que levita e outras vezes Lágrimas verte e brasa acende.
Já não se ouve o arrulho no pombal Nem as corridas escada abaixo, escada acima. Mas sinto a toada que me cresceu O rio, o monte, o sonho e eu E do salgueiro a impetuosidade.
Palpita de novo a alma do alpendre Desafios maternos, infinitos verbos. Nua, a grade resistiu E à intimidade do tempo confiou Novas sementeiras.
E meu livro é minha escolha Meu rio, minha folha, meu desejo Que dedilho na inquieta pele da palavra.
Em meu regaço renasce o espanto dos pardais O encanto do universo e da poesia azul Quadro que festejo beijo a beijo.
Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Somos bando ( para Alice Queiroz)



Chamaram-te os teus olhos e e o teu sorriso.
Viste-me perdida.

Entrei no bar como poetisa atrevida, em concurso.
Noite dentro. Sozinha.
E tu, andorinha arribada. Eras graça, ninho aberto
E e no teu bico as flores eram versos
Que não te atrevias a partilhar. Recheados de candura.

O teu bando foi crescendo, com naturalidade
E alegria E o abraço de um retalho de céu.
Perdoavas-me as ausências “vens de longe, Teresa!”

Éramos do bando, dos afetos e dos jardins perfumados.
E da poesia que as andorinhas escreviam nos beirais, fio a fio.
E o meu voo ao teu ficou abraçado.

Partiste, mas a andorinha pequenina, de asas brancas, esvoaça na sala
Ainda.
Asas que me ofereceste. Sorriso celeste. Poesia inacabada.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 30 de dezembro de 2017

Abraço furtivo

É fácil saltares a janela e rumares à galhardia de finais dos anos sessenta. Leva os discos que trazias quando um dia bateste à minha porta. Esquece a cena em que atirei a foto que, no comboio, te dei. Quando nos olhámos pela vez primeira. Esquece. Eu não consigo. Quando prometias tesouros e melodias que amei. E amo. Era eu menina de colégio e de medo. Esquece. Eu não consigo. Voltaste da guerra e, de novo, bateste. A porta era outra e eu já longe daquele abraço furtivo. Já não encontro a tua veia poética.  Que à época, era só minha. Diz-me da poesia e das das noites em que os Beatles nos esfarrapavam a roupa. Tão pouca!

Muda o ano e a vida arde na fogueira. E um Porto Fino borbulha entre a ousadia e a imaginação.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Hora da Poesia Rádio Vizela


Acabei de gravar "Lhenços, boinas i saltaretes" para um programa que não gosto de perder: "A hora da poesia", na rádio Vizela. O meu coração enche-se de glória por levar a LÍNGUA MIRANDESA", pouco que seja, a um espaço que trata a poesia com esmero, devoção e brilho. Apesar de eu ser neofalante, a minha paixão é um voo sem limites.
O meu Pc fez atualizações demoradas mas como - por encomenda - deixou-me uma fabulosa imagem do meu rio. Como se quisesse felicitar-nos. É ele que me arrepia e me eleva às alturas em que sinto o eco da palavra.
O meu imenso abraço a Conceição Lima e à Rádio Vizela.

O buraco da moura