segunda-feira, 18 de junho de 2018

Reino de utopia


Seria o coaxar das rãs ao sol-pôr
A oblíqua cruz desenhada no terreno
Despido. Ou o cheiro a feno?

As pétalas disputavam
O brilho do poeta e a aura do pintor
E o charco absorvia o deleite de fim de tarde.

E havia um poema a macerar a cerejeira.
 E a disputa, a arte, o acaso do jogo
E a excitação. O brinde, a celebração.

Ao fino néctar degustado
Vibrava o verde das copas
E os translúcidos corpos evaporados

As rãs entoaram uma nota  acima
E o breu abriu os portões da despedida.

E o que nos seduziu?
Terá sido este reino de utopia
Que o coração do planalto ofereceu?

Teresa Almeida Subtil 



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Talbeç l pingacho le pinte / Talvez "l pingacho" lhe pinte


Foto de Teresa Subtil.
                                                          Talbeç l pingacho le pinte

La fin de maio ye ua ala çpindurada
Un poema ameroso screbido nua faia
Ye l sonido i la chama
Ye dar l pie nua moda de siempre.

Talbeç l pingacho le pinte

La fin de maio inda nun se percebe
Ye paixarico amboubecido
 na raia
Inda trai las einaugas a beilar
Las ligas berdes a relhuzir
I las letras tristes por resgar.


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Talvez "l pingacho"  lhe  pinte

O fim de Maio é uma asa pendurada
Um poema amoroso escrito numa fraga
É som e chama
É dar ao pé uma moda de sempre

Talvez "o pingacho" lhe pinte

O fim de Maio ainda não se percebe
É passaro enlouquecido na raia
Traz folhos a bailar
Ligas verdes a brilhar
E letras tristes por rasgar.

Teresa Almeida Subtil






segunda-feira, 28 de maio de 2018

Despudor / Sien bergonha


Despudor

Toco-te, delicada, quase com ternura.
Olho a elegância arroxeada  
e os matizes agradam-me.
Toco uma e outra vez … avanço e …
continuo a cobiçar-te …
É à toa que te folheio, e irrompo desastrada.
O último verso é mesmo o primeiro.
E percorro o poema sorvendo cada detalhe
que te é pele, que te é cheiro, despudor,
oblíqua miragem.
E se me quiser afogar de claridade,
preciso de me tornar íntima aragem
e ser do prado o teu olhar.

Sien bergonha

Topo-te, suable, quaije cun ternura.
Miro la simprecidade a dar al roixo
i l rostro agrada-me.
Topo ua i outra beç … arremeto i …
cuntino a cobiçar-te …
Ye a búltio que te leio, i bolo alborotada. 
L redadeiro berso ye mesmo l purmeiro.
I cuorro l poema buendo cada cachico
que te ye piel, que te ye oulor, sien bergonha,
retrocida  eimaige.
I se me quejir afogar de claridade,
perciso de me tornar íntema araige
i ser de l balhe l tou mirar.

Teresa Almeida Subtil

Lido no Congresso meu poema da Antologia de Autores Transmontanos
Durienses e da Beira Transmontana.

segunda-feira, 21 de maio de 2018



O murmúrio dos líquenes

É quando os passos seguem a memória
Que o olhar se exalta num mar tranquilo
E o trilho se faz florindo.
E cada toque de mão
É pétala abrindo ao arfar do coração.
Cativo.

E em caminho esquivo e tempo espúrio
É firme a rocha que se abre ao solfejo.
O lugar é peito que se expande e arde.
E é de desejo que os líquenes se agarram
E os lábios se abrem.

Liberta-se maio, murmúrio antigo
Aqui retemperado e festivo.



Teresa Almeida Subtil
(Casa de Chá da Boa Nova)



sexta-feira, 11 de maio de 2018

Palavras Selvagens





Palavras Servagens

Somos cor e pele, fragas expostas
Aos raios de sol e de lua.
E pelas geadas reluzimos mocidade.
Ainda que rugosas.

Tocamos caminhos desafiantes
E o sentido não tem perigo
Se tivermos asas no pensamento
E do vento a cumplicidade.

Sorve-se o instante, joga-se o olhar
E as contas são de vida e fantasia.
E de neve os passadiços.
Escorregadios anos.

As palavras partem selvagens
A planar esculturas, sentinelas do tempo.
Aragem do verso que se prende
E ousadia de ave que o rio bebe.

Teresa Almeida subtil

terça-feira, 1 de maio de 2018

Ró ... Ró ...



 Deixo a porta escancarada. E as rosas abertas.
Traço letras na pressa e no arrepio da ternura.
Aguardo a tua chegada.

Tens apenas dias de vida e eu asas nos pés.
Bailo sempre que a melodia me entra na pele
E se repercute em sentimento. Espicaçado.
Baile d´alma. Melodia e verso. Recomeço.

És de ouro, meu menino, como tudo o que o amor toca.
E quando da tua boca saírem os primeiros acordes,
eu estarei com o coração no picão onde alto sonhei.
Somos da terra, somos nós. E o cordão que vida te deu
À terra desceu. Maio floriu em nós. António, meu amor.

Bailo. Bailo e canto. Aguardo a tua chegada.
E mesmo que cantar não saiba,
És melodia e verso, meu menino.
Sou berço, abraço de avó.
Ró … ró…


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 25 de abril de 2018


Liberdade

Diz-se Abril como canto, como verso
Como vento que perpassa
Ou cravo de inspiração
Que se abre na praça.

E esta flor de laranjeira e a romã do paraíso
Olhar inteiro que comungo
Contigo. 

Diz-se Abril redenção
E mundo. Travo de mágoa, pauta incerta
Caudal que arrebata e estremece.

Diz-se Abril liberdade
Erva do caminho que se levanta
E floresce.

Teresa Almeida Subtil

Reino de utopia