terça-feira, 16 de outubro de 2018

HORA DA POESIA

Marcha da Hora de Poesia: https://www.youtube.com/watch?v=jOlKzv8qZQo


TERESA SUBTIL será a nossa próxima convidada de A HORA DA POESIA...
Os seus poemas são torrenciais, próprios de uma alma febril, próprios de quem escreve com os 5 sentidos em alerta!!
Conceição Lima

sábado, 13 de outubro de 2018

Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos

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Foi, para mim, uma subida honra integrar na minha obra o prefácio de Domingos Raposo, ilustre professor e dinamizador da língua mirandesa. Uma mão preciosa, devo dizer.

PREFÁCIO – ANTRADA
Teresa Almeida Subtil é natural de Lagoaça, povoação sobranceira ao Douro Superior, com grande beleza natural, clima ameno e um solo pródigo em frutos, e, culturalmente falando, integra as designadas “Terras de Miranda”, com bem referia Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal.
E se o ser humano é filho do meio em que nasce, do lar em que se cria e da formação que recebe, Teresa Almeida Subtil não é exceção. A pureza do meio, a educação esmerada do lar, a riqueza da formação adquirida fizeram-na grande e levaram-na, por inclinação própria, a seguir a nobre missão de ensinar, que exerceu sempre com elevado profissionalismo, competência e entrega. Amante da dança e da pintura, a que também se dedica nas horas de lazer, deixou-se guiar, nos últimos tempos, pelo pulsar e força da poesia, que lhe corre nas veias, a jorro, genuína, natural, fluida. A fim de não desperdiçar o bafo da inspiração, assumiu, como motu proprio, o lema do pintor grego Apelles, “nulla dies sine linea” – nem um só dia sem (uma) linha -, até porque desde cedo compreendeu que “scripta manent”, ou seja, que os escritos permanecem. Essa produtividade levou-a à perfeição técnica do poema, prenhe de simbologia e emoção, como podemos comprovar com a presente obra, que resulta da seleção (nada fácil de fazer) de uma vasta lista de poemas.
Mas esta obra ganha ainda um valor redobrado porque sendo a autora uma apaixonada pela língua mirandesa, que aprendeu, de per si, sem a ter mamado no leite materno, aparece traduzida, em mirandês, pelo próprio punho, dando um grande exemplo de que querer é poder e de divulgação daquela que é a segunda língua oficial de Portugal.
Escrever poesia é uma arte e toda a arte é maravilhosa porque se por um lado é inútil “não mata a fome, não mitiga a sede, não protege do frio e do vento” (Ruy Guerra), por outro é transformadora porque inebria o espírito, aquece a alma, desvenda e ilumina caminhos, muitas vezes sombrios, escondidos, subterrâneos. E Teresa Almeida Subtil, com um incontornável e não explicado deslumbramento, que nos fascina, apresenta-nos, nesta obra, caminhos dessa transformação, tendo como ponto de partida e fio condutor o Rio (Douro) – que a marcou profundamente desde a infância – no seu sentido mais abrangente e metafórico: “rasgo a Primavera do alto das arribas do Douro”; “sinto o eco das margens a pulsar”; estão vivas as águas do meu rio”; “diz-me do rio de palavras selvagens preso em ti”; “… ser-te-ia nascente e foz a um tempo”; (…). O seu Rio é imenso, infinito: tem sol, sombras, arribas, fauna, flora, gente, etnografia, atrações, mistérios, cores, aromas, paladares, fragores, sonoridades, acordes, amores, choros, cantos, “cantando o amor em cada passo e em cada batida de inquietação”.
Teresa Almeida Subtil, com clareza, sensibilidade estética e cumplicidade com o seu Rio (fonte de sonhos, afetos, desafios, preces, promessas, esperanças…) compõe poemas com essência e perfume, vestindo-os a preceito como se vestisse um corpo com o fato e os adereços do melhor estilista, mostrando que “a poesia é emoção, um grito de liberdade, um brinde à vida”. E se para ela ser poeta é “… dar-te a chave do céu e do prazer”, também faz jus ao sentimento de Florbela Espanca: “tem de mil desejos, o esplendor; possui um astro que flameja; tem garras e asas de condor; tem fome e sede de Infinito; condensa o mundo num só grito”, como testemunha nesta obra, de forma brilhante, guiada pelas suas memórias, vivências, introspeções/intimidades, valores, leituras, telas de vida, evocações, projetos, trajetos e horizontes.

Os poemas deixam-nos perceber que a autora comunga o pensamento de outros poetas consagrados. Sabe “que o sonho comanda a vida” e com ele “o mundo pula e avança” (António Gedeão); que “o meu pensamento é um mundo subterrâneo… Escuto-o… como um eterno rio indescoberto, mais que a ideia de rio certo e abstracto” (Fernando Pessoa); “mas não calo a voz do chão que grita dentro de mim”, fazendo o “rio feliz a ir de encontro ao mar, desaguar, e, em largo oceano, eternizar o seu esplendor torrencial de rio” (Miguel Torga). Torrente, qual “caudal sagrado” de infinitos, que abre espaços à reflexão, à afetividade, à solidariedade… e faz de cada poema um “dia novo, de renovo e poesia”, como Torga gostava de dizer.
Teresa Almeida Subtil, sente o prazer da escrita e escreve com palavras “tecidas de luz” (Eugénio de Andrade), em intimidade com os versos e a musicalidade das sílabas, com o coração cheio, seguindo a transparência das estrelas, compondo, com uma imaginação transbordante e apaixonada, autênticos hinos ao Sol “com notas marciais, que soam como um clarim (Gomes Leal) e “com o desejo de ser apenas harmonia, cantando a luz que todo o espaço inflama, e sonhando a perfeita e mística alegria” (Teixeira de Pascoaes).
Parafraseando Manuel Alegre, este é “um livro de poesia por onde corre o sangue, a escrita, a vida”. “Pois só no poema um povo amanhece” (Sophia de Mello Breyner Andresen). Por isso, deixemo-nos levar por este “Rio de Infinitos”, escrito com cintilante claridade, onde a autora, norteada pelo maior dos ideais, permite que nos enriqueçamos e deleitemos com as suas magníficas criações, deixando-nos a esperança num amanhecer resplandecente, puro, expurgado de males e livre para pensar, sonhar, agir, repleto de Amor. Amor que conseguiu pintar com a sua cor preferida: a brisa da vida.
                                                                                                                                      
                                                                                                                           Domingos Raposo



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Vão de infinitos / Preça d'anfenitos



Vão de infinitos

É a varanda de grades da cor do tempo
que me leva em breve enleio e receio de entardecer.
É na varanda solta no descampado do olhar
que me debruço e me entronco na árvore onde me fiz.

É o toque na parreira de pele retesada
e rasgada que me diz da erupção que sentia
e das escadas que subia e descia,
querendo entender-me no emaranhado da vida.

Era em vão de infinitos que a varanda se espraiava.
E eu, debruçada, a sentir-me nada, não cabia em mim.
E eu, num chão de inquietudes a agigantar-me
para as dúvidas que nunca resolvi.

Aninhada em ti,
parecia que a aldeia ao longe era igual à minha,
embora a raia nos falasse de outra língua
e de outro país. Na minha varanda percebia a raia
e adivinhava que nem a vinha, nem a aldeia que avistava,
encobriam o reboliço do rio
que bem fundo cavava o fragaredo.
Nem eu nem o rio conhecíamos limites
e apesar do aperto e da inquietude,
saltávamos e corríamos
na pressa dum tempo a descobrir.




  

 Preça d´anfenitos (lhéngua mirandesa)

Ye la baranda de grades de la quelor de l tiempo
que me lhieba an brebe anleio i arrecelo d'entardecer.
Ye na baranda suolta ne l çcampado de l mirar
que m´astribo i m´antronco n´arble adonde me fiç.

Ye l toque na parreira de piel retesada
i resgada que me diç de l manantial que sentie
i de las scaleiras que chubie i abaixaba,
querendo antender-me ne l eimaranhado de la bida.

Era an preça d'anfenitos que la baranda se spraiaba.
I you, debruçada, a sentir-me nada, nun cabie an mi.
I you, nun suolo d'anquietudes a agigantar-me
pa las dúbedas que nunca resolbi.

Arrimada a ti,
parecie que l'aldé al loinge era eigual a la mie,
anque la raia mos falasse d'outra lhéngua
i d'outro paíç. Na mie baranda percebie la raia
i çcunfiaba que nien la binha, nien l'aldé q'abistaba,
tapában l rebolhiço de l riu
que bien fondo scababa l fragaredo.
Nien you nien l riu coinciemos lhemites
i indas que l aperto i l'anquietude,
saltábamos i corríemos
na priessa dun tiempo a çcubrir.

Teresa Almeida Subtil


(in Rio de Infinitos /Riu d'Anfenitos)


sábado, 15 de setembro de 2018

Surreal detalhe




A vida transpira em toda a tela
Nos dedos vagueiam ondas
Na paleta rumorejam cânticos 
E múltiplas erupções.

Surreal cada detalhe 
Expressão de desalento
Sonho mordido e largado ao vento.

A arte é fogo dos teus olhos
E Setembro um poema sumarento
A desdobrar-se festivo
A cada pranto.

No rosto pinto um desejo
E de espanto
Rejuvenesço.

Teresa Almeida Subtil



Paleta de Alexal - Alejandro Albarrán Garcia

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Instabilidade do verso




Deixa-me apenas uma nesga de luz
A febre das guitarras
Teu canto escaldante e o feitiço desta noite.

Deixa-me a tela em que me deito
E uma nota esquiva em meu peito.

E se eu tiver que viver
Na instabilidade de um verso
Estende-me lençóis de luar
E o vigor poético de Agosto.


Teresa Almeida Subtil

HORA DA POESIA