sexta-feira, 3 de julho de 2020

Ao sol poente

O som soltava-se ao alto da mansão
Dedilhado por mãos sábias
E coração cálido.

Ela abrandou o passo e ninguém percebeu.
Desprendeu-se.
Murmúrios e beijos repercutiam-se
Vadios.

E a portada envelhecida vestia a dignidade
Da partitura da tarde.
E nela se entranhava o cheiro a terra molhada.


E a trepadeira de flor miúda escalava o momento
Perfume-jasmim, melodia
E sentimento

E o gato de olhos esbugalhados
E a brisa a arrepiar a finura dos ramos
E a terra a arder e a saia amarela
A bailar ternamente.

Ao olhar para trás
Apenas uma pequena casa
Abandonada. E uma porta mágica
No caminho estreito de terra batida.

Devagar, ela prosseguiu
E o som que mitigou a sede da palavra
Abriu o sol poente.

Teresa Almeida Subtil



quinta-feira, 25 de junho de 2020

La jabeira / A algibeira






La Jabeira 


Nun sei dezir mui bien,

anque l sentir seia mui fuorte,

dezde la purmeira beç

que çcalçei uas guapas alparagatas,

puse ls pies ne l chano i beilei un repasseado.

Senti l'alma na lhéngua, ne l sonido

i na fuorça de las regubiuras.

Apuis la gaita, las castanhuolas i la fraita

fazerien camino cun nós por esse mundo afuora.

Benírun amboras i ampecilhos a zbiar-mos de la torna,

mas era tan berdadeiro este sentir,

que saltábamos todos ls paredones

i cuntinábamos,

cumo se na jabeira morasse la gana de bibir,

la berdade i la riqueza de la cultura mirandesa.




Algibeira mirandesa

Não sei dizer muito bem,
embora o sentir seja muito forte,
desde a primeira vez
que descalcei umas lindas sandálias de verão,
pus os pés no chão e bailei um repasseado.
Senti a alma na língua, na melodia
e na força do movimento.
Depois a gaita de foles, as castanholas e a flauta
fariam caminho connosco por esse mundo fora.
Vieram contratempos a desviar-nos do rumo,
mas era tão verdadeiro este sentir,
que saltávamos todos os muros
e continuávamos,
como se na algibeira morasse a vontade de viver,
a autenticidade e a riqueza da cultura mirandesa.

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Trilhos


É urgente sair da indecisão atordoante
Sobrevoar tempos dissonantes
Garimpar a palavra mastigada no silêncio
Aspirar-lhe o perfume para dele sair
Em volúpia

Atrever-se a esculpir, limando grades
E seguir além
Da imagem e da pele do horizonte
Como quem
tateia místicos e peregrinos
Diamantes. Brutos enigmas

E se entrega à simplicidade do olhar
Ao tempo em nós. Ao desejo
E à versatilidade ímpar
Da viagem

Teresa Almeida Subtil 


domingo, 7 de junho de 2020

Falua em calmaria azul




Nilo River - Assuan


A noite é de velas brancas dançando

Melodia que só as águas inventam

E a brisa é apenas beijo na face da noite

Que se aproxima como uma lenda

Ou um braço no ombro

Tão leve e aconchegante

Que a vida é este momento

Recortado nas agulhas do tempo

E a ternura é ambiência

Que nos toma

E desliza...


Teresa Almeida Subtil





~



segunda-feira, 1 de junho de 2020

Olhos de miosótis





O António tem olhos de miosótis

Ou de estrelas

Avó, vem cá! E correm de mãos dadas

Olha um caracol eu sei!

O olhar da avó é profundo

Sabe as virtualidades do tempo

Ou julga saber.

E o António a aprender, descobre e corre

Corre quanto pode

Parece ter medo


Que se acabe o mundo. 


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Benerás / Virás



Benerás

Na spera de la tarde
Na chama de l entardecer
Starei adonde la palabra me quejir
Cum remissacos de riu
Pies d’arena i beisos de mar
Benerás sempre que l çponer
Me tocar. I miu cielo de maio
Fur lharanja de l maçanal

Benerás na fuorça de bibir.

Virás

Na delonga da tarde
Na chama do entardecer
Estarei onde a palavra me quiser
Com resquícios de rio
Pés de areia e beijos de mar
Virás sempre que o crepúsculo
Me tocar. E meu céu de maio
For  laranja do pomar.

Virás na fúria de viver.
Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Talbeç un die / Talvez um dia


Talbeç un die!


Era maio i la madressilba stendie nas paredes
la lhiberdade abrolhada ne l córrio de las geladas,
Éran fecundos ls soles que abril sembrara
i berdes las senaras prenhadas de pan.
De seda azul era l'alma de las cantigas
i an abraços splodien puontes d'ounion.

Antrementes,
anchenas fúrun minando ls lhiçaces
i ls crabos que las puontes sigurában.
Nun fui de fartura que ls rius angordórun
nien de sperança que las puontes sbarrulhórun.
Éran moços ls suonhos que zabórun
i nuobo l sangre que ls cuorbos ancubrírun.

Talbeç na chimpa la rebeldie i la coraige se lhebánten
bretones de madressilba agárren anteiras las manhanas
i lhimpos séian ls caminos que mos spéran.
Talbeç maio torne a florir nas paredes de l canteiro
i de bico a bico gríten ls montes l’alegrie
se las cascatas cantáren la coraige i l'ousadie.

Talbeç un die!



Talvez um dia!


Era maio e a madressilva estendia nos muros
a liberdade germinada no conluio das geadas.
Eram fecundos os sóis que Abril semeara
e verdes as searas prenhes de pão.
De seda azul era a alma das canções
e em abraços explodiam pontes de união.

Entretanto,
enxurradas foram minando os alicerces
e os cravos que as pontes seguravam.
Não foi de fartura que os rios engrossaram,
nem de esperança que as pontes ruíram.
Eram jovens os sonhos que desabaram
e novo o sangue que os corvos encobriram.

Talvez na queda a rebeldia e a coragem se levantem,
botões de madressilva agarrem inteiras as manhãs
e limpos sejam os caminhos que nos esperam.
Talvez maio volte a florir nos muros do canteiro
e de bico a bico gritem os montes a alegria
se as cascatas cantarem a coragem e a ousadia.
Talvez um dia!



Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)