segunda-feira, 11 de maio de 2020

Aquém da fantasia





Chamemos espírito ao que em essência somos

E ignorância ao crê-lo definido

E liberdade à palavra que se lhe ajusta.

 

Há quem lhe conheça as cores

As encruzilhadas, os medos e os prazeres

Quando se acorda a meio da escalada.

 

Mas eu não sei nada.

 

E se o poema quiser galopar o sonho de um dia

Fica sempre aquém da fantasia.


Teresa Almeida Subtil





terça-feira, 5 de maio de 2020

Prova de fogo


Há alturas

Em que as palavras perdem sentido

Como noites em claro

Ou gritos ao alto da montanha

Sem repercussão.


Não resistem à revisão geral

É vida gasta, jornal desfeito

Ferido.

Não apontam estrelas

Nem aportam ao cais de salvação. 



Falta-lhes húmus, viço, fulgor.



Sensaboronas,

São amarfanhadas e despejadas

Em vão de escada, ao lado do artigo

Infecioso, abolorecido.


E quando a fogueira explode

Vagueiam chispas, clarões, energia

E até no inferno se agitam - as palavras

E salvam o poema que nelas

Ardia.


Teresa Almeida Subtil






segunda-feira, 4 de maio de 2020

Ls beisos de l riu




Cuido que nun sabes
Que yá abrírun las papoulas.
Ls bretones yá los teniemos bisto
Ou anton fui un sonho que you tube
Quando te bi a sembrá-las n’auga de l riu
Talbeç quando m’ancerrórun an casa
Y you sabie que nun ibas a deixá-me
Sien ua primavera de bersos mui acesos.

Agora las papoulas son ls lhábios de l riu
Burmeilhos de tanto roçáren ne ls mius
Si. I se nun furas poeta i se nun punisses
Quelor, cheiro i sentimento na mie jinela
Cumo passarie you la quarentena?

Abrírun las portaladas de maio
I anque znudos
La lhuç i la fuorça de la corriente
Fizo de nós un abraço
I, sien miedo, seguimos adelantre
I screbimos cumo quien sinte
La bida a spargir-se
Por ende.


Teresa Almeida Subtil







Os beijos do rio




Julgo que sabes que já abriram as papoilas


Os botões já os tínhamos visto

Ou então foi um sonho que tive

Quando te vi semeá-las na água do rio

Talvez quando me encerraram em casa

E eu sabia que não ias deixar-me

Sem uma primavera de versos

Muito acesos.



Agora as papoilas são os lábios do rio

Vermelhos de tanto roçarem nos meus

Sim. Se não foras poeta e não pusesses

Cor, perfume e sentimento na minha janela

Como passaria eu a quarentena?


Abriram as portas de maio

E ainda que despidos

A luz e a força da corrente

Fez de nós um abraço

E, sem medo, continuamos

E escrevemos como quem sente

A vida a alastrar 

Por aí.



segunda-feira, 27 de abril de 2020

Inverno acima




Cada grito era um farol em verde encosta
E o limão não perdia a acidez
Curativo de maleitas inverno acima
Dulcíssima a laranja inaugurava a manhã
E desfazia-se na boca em furor poético.

Assim a conheci no paraíso
Vida escorrida como fio de azeite
Louro em prato alvo
E a oliveira harmonizava-se
Nesta atmosfera que o olhar recolhia
Em adoração.

Teresa Almeida Subtil


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Abril em Portugal



Por instantes 



Por instantes
Abre o sol na alcáçova dos abraços
E há mãos que amam e sofrem
E inauguram palavras que escorrem
Dos dedos
E pássaros da liberdade que cantam
Mornas de saudade

Por instantes
Deslizam e chispam na corrente
Reflexos de cravos vermelhos
Alguns de Abril acesos
Outros mergulhados na sombra
Como abutres transidos de medo.


Por instantes
Abre-se a música das varandas
A alegria e os aplausos
Que saúdam quem se entrega
A salvar as primaveras
De cada um.

Por instantes
Nos céus e na terra
Esbanjo, meu amor, os beijos
Que confinei noutra guerra
E nesta também.

Por sfergantes  (Lhéngua mirandesa)

Por sfergantes
Abre l sol ne l nial de ls abraços
I hai manos q'áman i súfren
I çcúbren palabras que scuorren
De ls dedos
I hai páixaros de la lhibardade que cántan
Mornas de suidade

 Por sfergantes
Zlhúbian i chíçpan na corriente
Relhistros de crabos burmeilhos
Alguns d’Abril acesos
Outros afundidos na selombra
Cumo cuorbos chenos de miedo.

 Por sfergantes
Abre-se la música de las barandas
L'alegrie i ls aplausos
Que salúdan quien s’antrega
A salbar las primaberas
De cada un.

 Por sfergantes
Ne ls cielos i na tierra
Arramo, amor miu, ls beisos
Que guardei noutra guerra
I nesta tamien.

Teresa Almeida Subtil

25 de Abril siempre!

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Gineceus de poesia


Teus olhos
Pétalas molhadas
Desfolhadas nos olhos meus.

Claras madrugadas
A despertar nas margens do dia
Maviosos gineceus de poesia.

Páscoas de aleluia
Estilhaços de vida
traçados em meu rosto.

Lilases dançando
E sinos tocando
Melodia que ouço.

Miúdas pétalas do chão
Poemas que escreves
Em minha mão.

Teresa Almeida Subtil






quinta-feira, 9 de abril de 2020

"La chata me Kantari"



Itália
É suspiro
E fonte de imaginação
Barco vazio
E perene canção.

Fremente poema
Abraço e gruta
Coral cravado no céu
E rubra pena
De quem te amou
E te ama

Ainda que
Perplexos e perdidos
A esperança não se confina
Nem se adia
E a força da natureza
Ressuscita 
Dia a dia.

Teresa Almeida Subtil